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VIDA
por Donna Crystal
Quantas
vezes nos pegamos pensando, falando ou mesmo filosofando sobre o
verdadeiro sentido da vida. Claro que quando estamos bem financeira,
econômica, física, profissional e sentimentalmente, as nossas indagações
são menores e as respostas mais rápidas e positivas.
Oh sim! A vida é bela e
como vale a pena ser vivida. Mas, quando as coisas não estão acontecendo
como gostaríamos que fossem e conscientes de que nossos questionamentos
são reflexos do nosso momento, quase sempre concluímos que viver não tem
tanta graça assim, nem sabemos porque nos apegamos tanto a ela e outras
vezes achamos até que a vida não tem o menor sentido.
Noutras, nos sentimos
tão frágeis e deprimidos diante da luta contínua e muitas vezes
infrutífera, que gostaríamos simplesmente de parar o trem da vida e descer
na primeira estação, tamanha a nossa desolação.
Eu posso falar destas
etapas e de outras em estágios ainda piores com total conhecimento de
causa, pois me permiti adentrar túneis tão sombrios e frios que jamais
pensei encontrar o lado da saída, mesmo porque não a procurava, ver o sol
da minha existência era algo tão inatingível quanto indesejado.
Fui me afundando cada
vez mais e dos meus quarenta e nove quilos, cheguei a pesar 103 quilos.
Não havia regime que me fizesse perder peso, pois eu só o fazia
corretamente no primeiro mês, ao voltar ao médico e constatar que havia
emagrecido, algo muito forte e conflitante acontecia dentro de mim e eu
precisava comer muito para engordar muito mais e recuperar o que perdera.
Só que eu não tinha
conhecimento de que deliberadamente eu me punia, achava apenas que o
regime não estava mais dando certo. Tentei todas as alternativas da
alopatia, homeopatia até medicina nuclear e cada vez ficava mais gorda.
Fui para o interior do
Paraná e lá morei por quatro anos e a minha história em nada mudou. Voltei
para São Paulo, comecei a trabalhar numa concessionária de automóveis,
para uma empresa terceirizada que pertence ao meu cunhado, por pura
necessidade, pois me sentia e estava horrível.
Cada novo tratamento ou
novo médico de quem eu ouvisse falar, lá ia eu começar tudo de novo para
jamais terminar. Prejudiquei de tal forma o meu corpo, que hoje fui
penalizada com três hérnias de disco, fora o desgaste nos joelhos. Me
esqueci de mencionar, mas tenho apenas um metro e sessenta de altura e
isto por si só se explica.
Tenho uma irmã doze anos
mais nova que eu e sempre a considerei mais como filha do que irmã. Ela
estava cada vez mais preocupada com a minha situação e procurava me ajudar
com informações sobre médicos, remédios, tratamentos alternativos, etc.
As minhas crises de
bronquite eram cada vez mais freqüentes e piores, por todos os lugares da
casa, do trabalho e até nas residências das pessoas da minha família eu
deixava “bombinhas” de aerolim ou berotec, tamanho era o meu medo de
entrar em crise e não achar nenhuma por perto.
Na época eu era casada e
o meu marido teve problemas renais, cuja gravidade o levou a hemodiálise e
posteriormente ao transplante. Nesta ocasião ele foi mandado embora da
empresa em que trabalhava e a nossa situação financeira que já estava
péssima, ficou ainda pior.
Minha única filha estava
em plena adolescência e com todos estes agravantes, os nossos conflitos
passaram a ser constantes. Enfim, para mim, a vida era um verdadeiro
pesadelo e daqueles que eu jurava não sair nunca mais.
Porém, um dia esta minha
irmã, me falou sobre um psicólogo que ela tinha levado a sua filha mais
velha para uns “exercícios” objetivando diminuir a timidez, melhorar o seu
desempenho nas passarelas e que havia sido muito bom.
De imediato fui até meio
agressiva, dizendo que não tinha nenhum problema para ser tratado, que
apenas tinha dificuldade para emagrecer e mais nada. Só que a depressão e
o peso aumentavam na mesma proporção.
Como a minha filha
estava fazendo cursinho para prestar vestibular e este se aproximava, foi
quem primeiro se interessou em falar com o terapeuta indicado. Seu
interesse era apenas em alguns exercícios que a ajudasse a relaxar e
encarar melhor as provas e de fato sentiu-se muito melhor.
Um dia, depois de meses
de insistência da minha irmã e com o aval da minha filha, resolvi marcar
uma consulta. Quando me aproximava do consultório, foi me dando uma
vontade enorme de voltar, não conseguia atinar no que estava fazendo ali e
que tudo era uma enorme bobagem.
Logo eu? A pessoa que
achava que o maior psicólogo era a própria vida e que fazer terapia era
coisa de quem não tinha absolutamente nada para fazer? Resolvi que só iria
naquele dia por educação, pois a consulta já estava marcada fazia dias e
pelo meu senso de responsabilidade e respeito, não poderia simplesmente
não comparecer.
Fui gentil e
pessoalmente recepcionada pelo próprio terapeuta, que como já se espera,
fez com que a conversa na recepção ainda em companhia do meu então marido,
fosse o mais informal possível o que acabou tirando de mim a má impressão
que eu havia formado.
Ainda com a intenção de
nunca mais voltar, adentrei o consultório em sua companhia. Eu esperava
que passasse pelo constrangimento de enfrentar o silêncio dele por uma
longa hora, assim como assistimos nos filmes que só o paciente fala e o
terapeuta ouve.
Felizmente não foi
assim, conversamos sobre assuntos gerais sem nenhuma obrigatoriedade de
falar sobre mim mesma de imediato. Algum tempo depois eles quis saber
quais eram as minhas expectativas com relação ao tratamento e expôs os
seus métodos de uma forma simples e compreensiva.
A hora passou rapidinho
e fui embora. Na semana seguinte eu voltei “apenas” para compreender
melhor o trabalho dele, mas por certo seria a última vez.
Continuei voltando todas
as quintas-feiras e descobri o quanto era importante conversar com alguém
totalmente imparcial o que me deixava a vontade para falar do que e quanto
eu quisesse. Não havia critica em relação aos meus pensamentos, para mim,
era muito importante principalmente o fato de que interagíamos
naturalmente o que contribuiu para que eu não me sentisse constrangida em
momento algum.
Embora eu fosse curiosa
a respeito do assunto, não tinha grandes informações a respeito da hipnose
científica e esta era a especialidade dele. Fiz algumas perguntas e a
todas, ele me respondeu com clareza, mas embora a cada começo ou final da
consulta fizéssemos os exercícios de relaxamento, eu ainda não tinha
experimentado a hipnose como terapia regressiva.
A minha maior
preocupação continuava em conseguir emagrecer, então comecei a relatar
espontaneamente algumas recordações da minha infância, quando até os meus
12 anos eu era tão magra que causava sentimento de pena nas pessoas da
família e tudo era feito para que eu ganhasse alguns quilos, sem que
obtivessem sucesso.
Então, numa consulta
quando meu terapeuta e eu comentávamos sobre isto, ele propôs um
exercício. Como muitos sabem, o transe hipnótico pode ser obtido de várias
maneiras, inclusive com o tom da voz utilizando palavras diretas e
repetidas. Foi como aconteceu comigo.
De início fiquei um
pouco apreensiva, mas na medida em que relaxava e constatava que ele não
dirigia nenhuma sugestão subliminar de forma a me influenciar na obtenção
das minhas respostas, ao contrário, ele apenas me pediu que procurasse não
reprimir os meus pensamentos, deixasse que eles percorressem os caminhos
que quisessem em total liberdade.
Devo admitir que foi
bastante interessante e vivenciei partes da minha infância e adolescência
com segurança e nitidez, começando assim, a descobrir alguns aspectos que
me levaram a admirar as pessoas gordas.
Nós tínhamos combinado
que quando eu quisesse parar, bastava erguer o dedo indicador da minha mão
direita e nós encerraríamos o transe. Isto feito é que eu relatava a ele o
que tinha visto e sentido, então a nossa conversa partia sempre para um
estado de compreensão e transformação do momento buscado.
A partir desta nova
compreensão, iniciei um regime médico, alimentar paralelo, emagreci 32
quilos e continuo até hoje em manutenção. Ainda preciso emagrecer mais 10
quilos, mas já aprendi a controlar a minha ansiedade e sei que posso
chegar tranqüilamente aonde quero.
Muitas outras coisas
importantes eu consegui ver e entender com o auxílio da hipnose. Sei, no
entanto, que este resultado só foi possível graças ao conhecimento,
seriedade e competência do profissional que me orientava.
Não gosto muito de usar
palavras definitivas para descrever momentos ou sentimentos, ainda mais
difícil é tentar quantificar ou qualificar nossos resultados, mas posso
dizer que mudei e conseqüentemente mudei a minha vida.
Hoje eu me respeito o
bastante para saber dizer sim ou não quando necessário, compreendo e
respeito as minhas qualidades e os meus limites. Aprendi a gostar de mim,
gostar e respeitar as pessoas como elas são, sem achar que devem mudar por
serem ou terem opiniões diferentes das minhas.
Não vou dizer que
aconteceu comigo o milagre da transformação, mas não posso negar que me
permiti a grandes e positivas transformações.
Deixei de me ver apenas
pelo meu peso. Entendo, agora, que sou muito mais do que alguns quilos
extras. Sou uma pessoa que raciocina, produz, interage, participa, ri,
chora, perde e readquire a calma. Enfim, sou uma pessoa absolutamente
comum, mas reconheço o meu espaço e a minha importância no mundo em que
habito.
Acordar todas as manhãs é
algo que valorizo cada vez mais, pois sei que o meu dia, apesar
de todas as correrias e responsabilidades, vai ser
deliciosamente intenso, positivo e que o inesperado das
situações é que me fará crescer cada vez mais.
Talvez eu jamais consiga
definir o real sentido da felicidade, mas não deixo mais que uma situação
negativa, seja ela qual for, dure mais que alguns minutos. Já perdi muitos
anos da minha vida com lamentações inúteis, desculpas apropriadas,
utilizadas pra me fechar para o mundo e sentimentos tão conflitantes
quanto desnecessários. Possivelmente o resultado desta compreensão possa
ser algo próximo, ou o caminho que conduz a ela.
Não sou uma pessoa que
acha importante ter uma vida longa, mas que, saber aproveitar cada minuto
com alegria, intensidade e responsabilidade é que faz toda a diferença.
Aprendi durante este
período e re-aprendo todos os dias que, quando os nossos problemas crescem
e que sozinhos não estamos conseguindo encontrar as soluções, é chegada a
hora de procurar ajuda e mais que procurar, o importante é aceitar que nos
ajudem.
Jamais teria a pretensão
de aconselhar, mas usufruindo do meu direito de opinar, eu diria: o melhor
é procurar esta ajuda num profissional sério e competente, que seja
totalmente neutro nos acontecimentos da nossa vida e da nossa família. A
imparcialidade neste caso é, para mim, o início da confiabilidade que será
estabelecida. |