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Verdades e Exageros
Sobre a Hipnose
Paulo Madjarof Filho
As pessoas ainda têm uma imagem fantástica da hipnose,
invariavelmente associada ao que vêem em filmes ou programas de televisão.
Ainda é comum a associação do fenômeno hipnótico com a imagem do relógio
de bolso balançando de um lado para o outro e a queda num sono cataléptico
profundo. Nos dias atuais, este é um método pouco utilizado para a indução
do transe hipnótico e os profissionais da saúde que lidam com a hipnose
vem usando freqüentemente métodos positivos de indução e o aprofundamento
por relaxamento, propondo um estado de concentração e tranqüilidade.
Tão comumente me perguntam se a hipnose é verdadeiramente
um fenômeno real, porque decerto algumas pessoas relutam em acreditar que
exista nelas mesmas uma instância que sobreponha sua própria vontade e
desejo. Refiro-me ao tão (des)conhecido e popular inconsciente, que muitas
vezes é capaz de colocar-nos como espectador de nossos próprios atos.
Respondemos, por exemplo, de modo inapropriado a uma determinada situação
ou estimulo, somos absolutamente conscientes disso, no entanto sentimo-nos
incapazes de modificar esse padrão-resposta, que não vem de fora senão de
nós mesmos. Talvez resida ai o grande mistério que intriga e desafia a
filosofia e a psicologia desde tempos remotos a cerca da natureza humana:
afinal, sou ou não dono de minhas vontades? Se não, quem é?
Tenho observado a insistência dos estudiosos do assunto em argumentar
sobre a preservação da autonomia do individuo hipnotizado e os valores
imutáveis que norteiam sua conduta ética social, pela credibilidade
imprescindível e necessária para o trabalho com a hipnose. No entanto
encontramos relatos na história da hipnose de indivíduos que, submetidos à
hipnose, respondiam de um modo contrário ao que, conscientemente se pode
esperar. O Padre Gassner, por exemplo, conduzia teatralmente por meio da
hipnose, as pessoas a um estado de semimorte. Não creio que esta seja uma
reação que conte com a anuência da parte consciente do individuo!
Em descobertas recentes, os cientistas observaram que
embora os indivíduos respondam às sugestões quando hipnotizados ou mesmo
depois da hipnose, muitas vezes estão conscientes e sofrem com as mudanças
dramática de seus pensamentos e expressão comportamental, sem sentir que
podem refreá-los. O cérebro fica temporariamente incapaz de raciocinar
criticamente.
Não obstante, é na clínica médica e psicológica que a
hipnose encontra a maior possibilidade de aplicação, seja no controle da
ansiedade ou da dor crônica, ou mesmo no tratamento de traumas e fobias.
Procedimentos conjuntos tem mostrado elevado grau de eficácia nos
pacientes convalescentes de cirurgias, recuperando-se mais rapidamente.
Muitos são os documentos e publicações cientificas que confirmam tal
eficácia e revelam que, o uso correto dos procedimentos hipnóticos, podem
alterar os processos cognitivos e interferir nos mecanismos de memória e
na percepção da dor.
O correto estudo de um determinado fenômeno exige meios
eficazes para mensurá-lo, como estabelece uma investigação de caráter
cientifico. A hipnose conta com as escalas hipnóticas que possibilitam a
avaliação do nível de transe que experimenta um individuo, de acordo com
as respostas dadas pelo mesmo. A Escala Torres Norry é a mais utilizada no
Brasil e, conforme assertou o Prof. Moraes Passos, tem um caráter
especialmente didático. Conta com cinco níveis de profundidade e
estabelece a observação de fenômenos inerentes a cada nível, como os
fenômenos oculares no nível hipnoidal, por exemplo. A resposta à sugestão
de insensibilidade olfativa faz com que o individuo seja indiferente a
amônia colocada sob o seu nariz e indica um nível profundo de hipnose, ou
o nível 4 na escala Torres Norry. Outras escalas como a de Stanford, por
exemplo, propõe uma série de 12 procedimentos onde são atribuídos valores
de 0 a 12 de acordo com o grau de susceptibilidade do individuo. O fato é
que as escalas servem apenas para escalonar o verificável – inerente ao
próprio ato hipnótico e fruto da sugestão de quem se encontra no estado de
transe.
O estado hipnótico é o meio pelo qual o individuo
reconhece que de fato tem vivido hipnotizado em seu dia-a-dia e durante
quase todo o tempo de sua existência, como quem ao retirar a venda que lhe
tapa a visão, se maravilha ao contemplar uma condição natural que eleva e
inspira – aprende de fato o caminho da De-hipnose! |