VASO DE FLORES
por
Donna Crystal
Adentro a floricultura e/ou a
pequena barraca de flores da feira e entre todas as belas flores
presentes eu me dou ao luxo de escolher aquela que está mais de
acordo com o meu estado emocional do momento.
Carrego-a para casa tomando
todos os cuidados e cheia de carinho. Coloco-a em um lugar de
destaque em minha sala e todas as vezes que passo por ela, algo
singular acontece em mim.
Os dias passam e cada vez
mais fazemos parte uma da vida da outra. Ela embeleza a minha e
eu cuido dela. Porém, sua estrutura é frágil, em pouco tempo
suas forças vão minando e, por mais que eu tente, não consigo
deter o seu fim iminente. As flores vão murchando, as folhas vão
caindo e o seu viço já acabou, mas ela ainda vive.
Retiro-a do lugar de destaque
e vou distanciando-a dele cada vez mais até chegar o momento em
que seu vaso não é mais que um objeto a atrapalhar o andamento
da lavanderia.
Olho para ela e sei que a
vida ainda está presente. Bastaria apenas um pouco de tempo,
espaço e cuidado para que ela, bem tratada, voltasse a
florescer. O tempo eu posso fazer. O cuidado está em mim. Mas
justifico-me dizendo não ter espaço. O conflito persiste entre
tratá-la e joga-la e, neste período, conflitante, ela roda de
canto em canto, até que de repente, eu me encho de coragem e a
jogo no saco de lixo.
Tudo deveria encerrar-se aí,
mas eu sei que acabo de enterrar algo que ainda vivia. Então,
começa o meu sentimento de culpa. Novamente eu me explico
dizendo que até o meu corpo voltará a terra. Por que não um vaso
que outrora foi de flores? Porém, o meu corpo, ao ser enterrado,
com certeza não terá mais vida e este ainda vivia.
Os questionamentos se
sucedem, mas isto não impede que ela seja substituída por outra
e esta por outra e assim consecutivamente. Sendo bem sincera
comigo mesma, sei que em algumas semanas, por mais que eu tenha
convivido com ela, não me darei ao trabalho de olhar para trás e
saber qual foi o seu destino final.
Assim somos nós os seres
humanos, nascemos e crescemos com propósitos definidos,
independentes das circunstâncias e após um curto espaço de
tempo, quando não temos mais o vigor necessário à movimentação
do corpo, começamos a definhar progressiva e infalivelmente.
Então é chegada a hora de sermos colocados fora dos lugares de
destaque.
Assim como as flores, vão nos
distanciando dele cada vez mais até a chegada da hora de, por
mais que se enfeite a ocasião, teremos os nossos corpos
literalmente colocados no grande e frio “saco de lixo”.
Restar-nos-ia, como base de
continuidade que tanto nos importa, a esperança de que a nossa
essência de vida se juntasse a grande energia cósmica e
contribuísse para a evolução do planeta e dos homens.
Mas nenhum deles evolui, o
planeta já bastante desgastado caminha para o seu fim, talvez
com muita sorte, em alguns bilhões de anos e o “homem” além de
se especializar na destruição da sua própria morada,
especializa-se cada vez mais em destruir-se uns aos outros.
Seria, talvez, o contrário do
que pensamos? A nossa energia uma vez desligada da matéria se
uniria para a grande destruição, ignorando todos os princípios
do bem? O bem existe ou é apenas a hipocrisia mascarando a
maldade?
Quando,
finalmente, me decido por jogar o vaso de flores no saco de lixo
estou sendo boa ou má? Ou depende, ainda, de que lado eu observo
o ato? |