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HIPNOSE E TRANSRACIONALIDADE
Paulo Madjarof Filho
A hipnose permeia a história da
humanidade desde os primórdios – e é importante que se diga que a
hipnose aqui, além da definição braidiana, refere-se a uma
capacidade humana de experimentar algo além da percepção sensorial.
Traduzimos o mundo a medida em que o experimentamos através de
nossos sentidos. Aquilo que vemos, ouvimos, cheiramos, tateamos e
degustamos nos causam impressões bastante peculiares. Explicamos as
coisas de acordo com essas representações internas sob a influência
da ordem universal das necessidades humanas – alimentação,
sobrevivência e procriação – e a ordem social, com suas regras e
rigores.
Penso, logo existo! A consciência de si
mesmo, a racionalidade como sustentação da própria existência. Penso
por quais determinações: pessoal, social, afetiva ou instintiva?
Penso somente o que quero pensar? A hipnologia coloca uma lupa sobre
estas questões e nos remete a uma reflexão muito mais ampla do
potencial interior de cada individuo. O coloca em contato com algo
real, porém, até certo ponto irracional. Lembro-me de um amigo
economista cujo rigor de sua formação – por sua própria definição –
o levava a equacionar a vida numa calculadora HP. Aos cinqüenta
anos, após sujeitar-se à hipnose, mudou seu paradigma: “tomei
contato material com o meu inconsciente” – e acreditem, este era o
modo para ele de tornar a experiência real.
Émilie Coué, baseado em sua experiência
pessoal, observou que quando a vontade e a imaginação são
antagônicas, a imaginação sempre vence, sem exceção. Que quando a
imaginação e a vontade se harmonizam, uma é multiplicada pela outra.
Formulou a Lei da Atenção Concentrada que dispõe que quando uma
pessoa concentra a sua atenção numa idéia, esta se concretiza por si
mesma. Um exemplo clássico para esta afirmação é o de sugerir que um
sujeito caminhe no solo sobre uma prancha de trinta centímetros de
largura por quinze metros de comprimento. Você seria capaz? E se
essa prancha estivesse entre dois edifícios a trinta metros de
altura? Logicamente não há motivo para que alguma pessoa não possa
fazer isso e a diferença consiste no fato de o sujeito pensar que
não pode, conforme preceitua Coué na Lei do Efeito Contrário. Diz
que quando uma pessoa pensa que não pode fazer algo e então tenta,
quanto mais pensa menos capaz fica de executa-lo.
Qual a influência da racionalidade
sobre a vontade e a imaginação? Até que ponto estamos no controle? A
idéia de uma mente subconsciente não é nova e tornou-se evidente que
muitas idéias e ações do homem surgem de fontes das quais ele
normalmente não tem consciência. Se o subconsciente está abaixo do
nível da percepção sensorial, pode (ou até que ponto) pertencer este
à parte dos processos dos pensamentos humano?
Estudos experimentais através da hetero-hipnose
demonstram a ação de uma instância que a racionalidade não alcança,
em nível físico, mental e emocional. Por exemplo, a sugestão de
experimentar uma moeda quente sobre a palma da mão, mesmo que esta
esteja apenas sob a influencia da temperatura ambiente, leva um
indivíduo a manifestar diferentes respostas: queimadura da derme no
ponto de contato, medo e esquiva, manifestações de desconforto, etc.
– estado revertido sob a mesma condição de transe. A maior
contribuição deste experimento não se refere ao resultado
propriamente dito, mas sim ao reconhecimento dos poderes latentes e
atuantes na mente de cada pessoa, que extrapolam a compreensão pelos
códigos e simbolismos sensoriais. Por estes mecanismos, fazemos e
desfazemos um câncer, por exemplo. |