Trajetória autobiográfica – qualquer semelhança não é mera coincidência

Paulo Madjarof Filho

 

Era uma vez um menino curioso que ficava pensando a razão da vida e sobre o mundo que fazia parte. Perguntava-se sobre o tudo e o nada, o finito e o infinito, sobre os limites e as fronteiras do mundo e o mundo surpreendente e ilimitado do pensamento e da imaginação. Surpreendente porque, cada vez mais, se dava conta que nele tudo podia. O menino sonhava acordado e, muitas vezes alheio ao que acontecesse a sua volta, viajava além do mar, das nuvens, das estrelas em busca das respostas a suas indagações. Embora buscasse o entendimento junto aos seus familiares, cujas respostas do tipo “porque sim” simplificavam por demais a sua experiência, era em suas viagens ao mundo do faz-de-conta e sem fronteiras, de sonhos e realizações, que se sentia em paz – mesmo sem compreendê-lo lógica e racionalmente.

 

Não demorou para que o menino, já não tão menino, percebesse que as viagens – agora menos freqüentes porém mais profundas – o transformava a cada dia. Percebeu que aquilo que imaginava de alguma forma repercutia nas experiências de seu dia-a-dia, aguçando ainda mais sua curiosidade para os aspectos mentais de cada fato e experiência humana, cada manifestação do “mundo real”. Então se perguntava sobre a essência do homem e o que o leva a se comportar da forma como se comporta, ainda, sobre as intenções contidas em cada gesto, cada atitude.

 

Lembrou de uma estória em quadrinhos do Professor Pardal, o inventor maluco do Walt Disney. Este inventou uma máquina que fotografava o pensamento – que se mostrava sempre diferente do comportamento dos retratados. Falavam os personagens fotografados sobre satisfação, prazer, alegria quando na realidade pensavam e sentiam o inverso. Diziam sim quando queriam dizer não e não quando queriam dizer sim. Na referida estória, a máquina teve que ser destruída porque tumultuou a vida social da pacata Patópolis, criando muitos conflitos entre seus habitantes.

 

Passou o tempo e ainda buscando respostas, o inquieto menino-rapaz se encantava – mesmo sem compreender – com os efeitos que certos pensamentos e situações imaginadas geravam. Gostava especialmente quando nos dias quentes, se deitava sem camisa no piso frio do quintal de sua casa e, por alguns instantes, se punha a observar as nuvens e suas formas. Fechava então os olhos e imaginava. Imaginava que as nuvens assumiam a forma de canhões que disparavam raios multicoloridos que tocavam a sua cabeça e espalhando-se por todo o seu corpo. Soltava a imaginação e se beneficiava com a grata satisfação que experiência lhe proporcionava. Reconhecia o menino-rapaz o papel da imaginação e sabia que racionalmente não podia explicar, no entanto, bastava-lhe o efeito positivo que perdurava por um longo período de tempo, traduzindo-se em motivação e alegria e, especialmente, o desejo de bis.

 

Logo percebeu que independente do local, podia simular e sentir todas as sensações dessa experiência – inclusive noturnamente em seu leito, quando sentia o frio do piso contrapondo o calor do sol que aquecia o seu corpo, via as nuvens e sentia o efeito de seus canhões de luzes e cores. Independente da percepção sensorial era capaz o menino-rapaz de provocar o mesmo estado sem necessariamente expor-se às condições físicas. Passou a acrescentar novos comandos a sua imaginação que não conhecia limites.

 

Tempos depois, o agora menino-homem, com novas referências do mundo literário/acadêmico/científico – que também não respondia satisfatoriamente suas inquietações – não calou a sua curiosidade que ao contrário se tornou ainda maior. Refinou as suas viagens para o mundo da imaginação impondo-se disciplina. Em suas pesquisas descobriu que outras pessoas tiveram experiências semelhantes a sua e que muitos ensaiavam teorias e formulavam hipóteses no anseio de obter respostas que aquietasse a curiosidade. Observou que muitas eram as denominações dadas ao que ele simplesmente chamava de viagem ao mundo da imaginação e criatividade. Estudou e vivenciou algumas técnicas que ampliou sua experiência sem entretanto modificá-la em sua essência.

 

Estudou o menino-cientista os chamados “Estados Alterados de Consciência” cuja abrangência mostrou-se muito ampla, indicada pelos diferentes nomes que descreviam os mesmos fenômenos, de acordo com a referência de cada pesquisador. Aprendeu então que um trabalho científico invariavelmente emerge da necessidade de respostas/soluções a questionamento/problemas explorado pelo cientista, que observa, indaga, hipotiza e experimenta na incessante busca dos “porquês” e de coerentes e plausíveis respostas que confirmem sua hipótese. No entanto não pode furtar-se o cientista (ou o leigo – menino-sonhador), ante as evidências de fatos cujos “porquês” – em boa parte – ainda não dispõe de confiáveis respostas’. É o caso de alguns fenômenos observados em sujeitos que experimentam mudanças em seu estado de consciência – fato permeado por diferentes áreas do saber humano – filosófico, científico ou religioso.

 

Percebeu o homem-menino que tornar claro os objetivos facilita a condução de um trabalho/tarefa. Pensou no bolo de laranja – especialidade de sua mãe – que tanto gostava. Um bolo de laranja precisa no mínimo conter a essência da fruta para que seja assim denominado. Assim, misturamos os ingredientes, seguimos alguns procedimentos e obtemos então um bolo de laranja, cujo objetivo não se reduz à função básica de um alimento – de acordo com sua ótica. O fato de o bolo ser de laranja e feito por sua mãe já o diferenciava de qualquer alimento comum, mas seria assim para outras pessoas?

 
 
 
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