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TORRE
por Donna Crystal
Avisto ao longe uma torre que
adentra as nuvens brancas como a desafiar os meus instintos e me
fazer desejar subir, apenas subir sem nenhum desejo de voltar.
Chego à sua base e caminho à
sua volta observando a plataforma de concreto em que ela está
fixada e vejo que o musgo e algumas espécies de pequenas plantas
já fizeram dela o seu habitat, significando que ela já não é tão
nova e a sensação do perigo me seduz ainda mais.
Subo uns degraus, alcanço a
sua primeira plataforma e já me pergunto se devo continuar, o
medo aparece, mas a curiosidade é mais forte e continuo subindo.
Olho à minha frente e o
horizonte se amplia cada vez mais e se ampliam também as minhas
expectativas.
Estou agora na metade da
torre e as lembranças chegam como se trazidas pelo vento, no
começo eram as mais corriqueiras, mas de repente é como se eu
pudesse vislumbrar toda a minha existência em simples frações de
segundo.
O conflito é inevitável, devo
voltar para a base de concreto onde posso fincar os meus dois
pés e me sentir segura ou seguir torre acima para me certificar
até onde a minha visão pode alcançar?
Concluo que devo seguir e me
seguro com mais firmeza, tomo cuidado com cada passo. As nuvens
estão cada vez mais próximas, e a sensação de vertigem é
simultaneamente apavorante e maravilhosa.
Mas sei que ainda tem mais
muito mais e que devo continuar subindo. A sensação de estar só,
sentindo apenas o abraço amigo do vento me faz delirar e começo
a criar fantasias na tentativa de melhor me encaixar no belo
cenário que a altura está me proporcionando.
Terra, aço e espaço, uma
mistura estranha a possibilitar a minha subida num momento impar
de pura insensatez. Ou sensatez? A minha adrenalina está a mil,
a minha mente está liberta e os pensamentos enlouquecidos.
Mas a sensação é
absolutamente prazerosa e a torre agora representa apenas a tela
para que o pintor possa pintar o abstrato.
Viajo em minha imaginação e
me solto por inteiro no ar, só o vento me sustenta e me carrega,
posso ir para onde desejar. Posso me desintegrar e reintegrar
quantas vezes eu desejar, posso cantar, gargalhar e
principalmente nada me impede de sonhar.
Os raios do sol se espalham
pelas nuvens fazendo em torno delas uma aureola dourada e
descubro que o céu não é azul, mas multicolorido e todo este
conjunto é de raríssima beleza a ser admirada.
Tomo consciência de que tudo
se posiciona no mais perfeito equilíbrio e que nada é inútil,
tudo tem a sua função e a exerce continuamente obedecendo a
ordens inquestionáveis do nosso querido Deus.
Olho pra baixo e a terra
parece estática, mas sei que esta aparência é irreal, pois a
vida está borbulhando em cada canto deste pequeno mundo, sei que
os sonhos estão se realizando, que pesadelos estão acontecendo,
que as guerras pipocam por todos os continentes e que uns estão
chegando enquanto outros estão partindo.
Sei que o trem da vida não
pára, que sorrisos secam lágrimas, que abraços curam, que a luz
do sol nos livra das noites “infindas”, que novos dias amanhecem
e que sem esta seqüência enlouqueceríamos, pois nada ficaria no
passado.
Então, penso que realmente
posso ficar na plataforma final desta torre para sempre e
usufruir todos os benefícios que a liberdade me dá, mas de
repente os olhos das pessoas que eu amo começam a desfilar
diante aos meus, sinto uma saudade imensa e sei que quero
voltar.
O meu coração acelera, todo o
meu corpo reage, é hora de descer. Pé por pé, degrau por degrau
eu retorno à plataforma, mas cresci, neste momento aprendi que
posso sair, correr, subir e até voar, mas que definitivamente
não posso e não quero mais fugir. |