TERRA / CÉU - II

por Donna Crystal

 

Nunca em momento algum vou conseguir entender o mundo sem música, flores e poesia.

 

Mesmo compreendendo que tudo que de matéria existe é terra. A mais linda das flores, o mais feio e o mais belo corpo/rosto humano ou animal é terra transformada. Não existe mistério. Não há dúvida, tudo é terra.

 

Houve tempo, quando eu ainda não compreendia esta realidade, achava lindo o mistério da formação dos corpos, mas a verdade é inquestionável irrefutável:  SOMOS TERRA.

 

Grande entendimento já tinha quem escreveu pela primeira vez que o homem era feito de barro. Claro que, tirando a fantasia bíblica desta formação, é a mais pura realidade. Não importa por quantos processos passamos ou quantos milhões de anos levamos para emergir da terra como vermes, micróbios, bactéria, vírus ou tantas outras vidas talvez ainda desconhecidas. O que conta no final é que chegaremos à forma animal e um dia à forma humana. O que também não descredibiliza a teoria de Darwin, ao contrário, só completa.

 

O que me intriga é como nascem os pensamentos e a “inteligência”.

 

A inteligência me intriga menos, pois a considero bastante questionável. Não aceito a opinião coletiva de que apenas o homem é inteligente e capaz de criar ou fazer. Acho inteligente as formigas, as abelhas, os macacos, os botos, as baleias, etc. Observando cuidadosamente o comportamento das feras, insetos, peixes e animais descubro que em seus mundos, as sociedades são organizadas, respeitam as hierarquias, se protegem dos predadores e não visam apenas a  própria pele, defendem suas famílias até a morte.

 

Discutível e questionável é a forma de quantificar e qualificar o grau destas inteligências. Uma vez que não posso agir nem pensar como o animal em análise, fica difícil ou incompleta qualquer informação, não podendo dar por conclusivo o resultado obtido. Como posso saber o que pensa um sapo se não sou um sapo?

 

O que dizer dos animais domésticos tais como: gatos, papagaios e principalmente os cachorros? Participam da vida cotidiana das famílias e amam incondicionalmente seus “donos”. Sofrem, alegram-se, defendem, acariciam e demonstram estes sentimentos com tamanha singeleza que me deixam absolutamente emocionada. E por mais que a ciência negue, eles até choram (aqui estou me referindo principalmente aos cães). Só porque não falam como nós ou não executam tarefas como as nossas, devem ser taxados de seres irracionais?

 

O que dizer então do homem em sua forma humana, que tortura e mata com requinte de crueldade o seu semelhante porque este se opõe aos seus propósitos ou simplesmente porque lhe dá prazer?

 

Não age este em desacordo com a grande maioria? Mesmo assim podemos conferir a ele a conseqüência natural da inteligência, apenas por possuir forma humana? A resposta por certo será: sim, falta-lhe apenas a consciência da moral e do equilíbrio emocional. Isto basta?

 

Desconheço entre as espécies animais, além do homem, qualquer outro com o instinto de prazer em torturar até a morte o seu semelhante.

 

Ser inteligente não significa ter discernimento, sentimento, potencial criativo e senso de preservação? Onde é que diferem os animais?

Talvez o fato de não saberem ou sentirem o que é inveja, ciúmes, arrogância, prepotência, ambição desmedida, capacidade de construir armas destrutivas, guerras, fome e sede de “poder”, mesquinharia, avareza, ódio, instinto de vingança, necessidade de acumular o que jamais conseguirão consumir ou usufruir?

 

De não trabalharem tanto, perdendo toda a sua juventude, para acumular bobagens que alguém, após a sua morte, liquidará com tamanha rapidez e indiferença? Ficam apenas algumas “lembranças” que ao longo do tempo vão se perdendo até atingirem a grandiosidade do “nada”?

 

Serão eles ou nós os seres irracionais? Portanto, para mim, a inteligência continua  discutível e questionável.

 

Agora, o pensamento, que é a única propriedade da cada ser vivo, é que me intriga de verdade. Nossos corpos como terra transformada, capacitaria o cérebro na formação do conceito “pensamento”?

 

Não acreditando nesta afirmativa, chegaríamos inevitavelmente na crença da existência do espírito. Correto? Não sei. Ultimamente venho reformulando a minha visão em relação ao espírito e cada vez mais concluo que tudo provem da terra. Não sei como, mas é da terra.

 

Esta possibilidade vem me deixando com um sentimento de prisão perpétua, derrota os meus sonhos de progresso espiritual e conquista de melhores mundos.

 

Acho que tudo se transforma e o nosso espírito é a forma/pensamento. Ao deixar o corpo, simplesmente passa para outras dimensões. Porém, pertencerão eternamente a este planeta TERRA.

 

Onde posso encaixar novamente os meus sonhos de me misturar ao vento e percorrer o universo? 

 

Fim das ilusões ???

 

O que fica de concreto e de belo no final são: a beleza das flores, a imortalidade das músicas e a sensibilidade das poesias.

 

 
 
 
 

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