SURTAMOS

por Donna Crystal

Posso sonhar que de repente num momento sublime eu me livre da miséria humana, que permite ao meu semelhante morrer de fome e frio, jogados nas ruas, vivendo sob a indiferença de todos que passam e principalmente daqueles que têm plena consciência de que eles estão morrendo.

 

Quero me livrar de uma vez do medo que ronda as pessoas pela possível perda dos seus empregos porquê as máquinas de preços multimilionários ocuparão seus lugares.

 

Preciso esquecer que o próprio homem em busca do descobrimento tecnológico não programa nem administra a sobrevivência do outro.

 

Preciso saber ou entender a razão pela qual uma simples bola perseguida e dividida entre vinte e dois jogadores num campo consegue juntar um público de milhares de pessoas em um campo e milhões de outras em frente a uma televisão, mas porquê estas mesmas pessoas não conseguem se unir para dar um basta nas arbitrariedades que dominam o mundo.

 

Fiquei por muito tempo olhando para as pessoas fantasiadas chegando aos estádios, passeando pelas ruas, se reunindo em clubes, e pensando em que tipo de carência ou necessidades nós ainda temos para que uma simples bola nos leve ao delírio ou ao sofrimento, como tem acontecido.

 

Milhões de dólares da economia nacional é direcionada para a contratação de profissionais renomados e manutenção da sua estrutura, fora toda a estrutura necessária de uma mídia sedenta e implacável.

 

Cada passo, cada gesto e principalmente cada gol são analisados e comentados até a exaustão, elegendo reis e derrubando  majestades, mas em nada beneficia a grande massa humana.

 

E é esta mesma massa que sustenta todas estas grandezas individuais que formam uma pequena sociedade à parte, onde todo o conforto, luxo e exageros são permitidos.

 

Qual será a necessidade que ainda temos em endeusar pessoas comuns que apenas se destacam em algum segmento, em determinadas fases da humanidade?

 

Porque será que ainda precisamos tanto de ídolos de barro? Porquê tanta veneração por artistas e esportistas? Seria a ostentação de bens materiais ou o poder carismático destas pessoas que atraem tanto as multidões?

 

Pessoas perdem horas em filas, enfrentam sol e chuva, passam fome, necessidades fisiológicas apenas para adquirirem um ingresso que os levará a uma proximidade do seu ídolo, do seu time de futebol ou da sua seleção por apenas algumas poucas horas e depois tudo em suas vidas voltará a ser como era antes.

 

Acho absolutamente normal assistir a um bom espetáculo como uma peça de teatro, um show, um concerto e um jogo de futebol, mas o que não consigo entender é a veneração que nos leva a cometer destinos.

 

Tenho duas sensações distintas quando assisto a estas aglomerações humanas direcionadas para um espetáculo, a primeira é de que a humanidade não tem mesmo jeito e que jamais conseguirá agir com discernimento, mas em seguida eu analiso que se ela ainda se junta para o espetáculo, porquê não se juntaria para a solução de problemas sérios que atingem a ela diretamente?

 

O que seria necessário fazer para conscientizar-nos de que a união é a única forma que temos para encontrar as soluções? Por que enxergamos apenas e tão somente os interesses a que somos sujeitados a enxergar?

 

Seria este véu propositadamente colocado em nossos olhos, obstruindo a nossa visão mental que nos impede de uma reação?

 

Será que surtamos e não percebemos ou em algum momento da nossa existência poderemos mudar o rumo da história deste ser humano perdido?

 
 
 
 

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