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SOU E NÃO SOU
por Donna Crystal
Me procure, me entenda, me olhe, me mime e me leve a sonhar. Não
se esqueça que a luz deve brotar do olhar com a simplicidade e a
fidelidade do oxigênio que se espalha no ar.
Não se esqueça que sou a lembrança e o real, que vivo o hoje o
que sonhei no passado. Sou o pássaro que voa num mundo ideal e
que pousou no chão de uma vida simplista num momento fatal.
Sou a fruta imperfeita escondida nas folhas do grande pomar, mas
carrego a doçura, a energia e o sabor para quem sem temores
souber me encontrar.
Sou a sombra que amedronta o menos sensível, mas sou a luz que
ilumina o caminho de quem sabe que a vida vai além do altar.
Sou quem pousa a nave do tempo na era do gelo e desperta a fera
no mundo dos anjos fazendo escândalo, atraindo olhares e virando
as costas sem sequer se importar.
Sou o anjo que canta louvores ao céu e que busca na terra uma
vida mortal. Que recita os salmos e gargalha febril na descrença
total.
Sou a pluma suave que levita no espaço e o peso da pedra que
dorme no chão frio de um canto qualquer.
Sou a sabedoria total conservando a ignorância de um ser
arrogante que se chama humano e habita um mundo suspenso num
universo hostil de beleza irreal.
Sou um reflexo no espelho de um corpo de aço, que se diz belo e
feio no mesmo momento em que defronta à verdade de um falso
ideal.
Sou a letra e a música cantada na voz de um ser divinal, que
espalha o veneno no mundo dos vivos e que busca o conforto no
ventre da mãe me fingindo inocente, exigindo carinhos, fazendo
gracinhas, mostrando a outra face num egoísmo total.
Sou a dama da noite com meias de rendas presas à liga na cintura
perfeita. Sou a sedução mais vulgar e a mais pura donzela que se
possa encontrar.
Sou a poesia recitada pelos lábios de quem sabe amar, sou o
vinho entornado nas taças dos amantes na noite de frio em frente
à lareira da sala de estar. Sou a lenda contada, a história
vivida e o medo do nada.
Sou a água que banha e o barro que atola. Sou o foguete no
espaço e a flecha de aço lançado no peito de alguém que um dia
seguia o caminho, buscando um lugar que nunca existiu.
Sou a poesia escrita num momento de amor e de enlevo total,
amassada e jogada no cesto do lixo num canto da sala após
aprender que o amor é a dor em um peito carente que não encontra
eco, apenas barreira no horizonte perdido do seu pensamento.
Sou a gota d’água escorrendo na folha verde após a chuva de
verão e a pedra de gelo servindo de abrigo ao vírus fatal.
Sou a nuvem carregada de água pronta pra desabar nas lavouras e
campos, e a seca inclemente matando de fome o lavrador
desprovido de qualquer esperança, num mundo de riquezas
guardadas nos bolsos de poucos, que seguem achando que somos
todos escravos a servi-los e a reverenciá-los, sem questionar se
amanhã possa existir o reverso da medalha.
Sou o sol e a lua, deuses poderosos das religiões pagãs e a
dúvida eterna do meu princípio e meu fim.
Sou o grito de dor e o suspiro do amor. Sou a chama que arde, a
demência que exila e o abraço que cura.
Sou a bela bailarina que desliza suave no palco da vida e o
monstro corcunda que apavora as crianças nos contos noturnos.
Sou o que sou e o que não sabia ser no momento seguinte. Sou o
canto do pássaro e o uivo da fera num mesmo espaço.
Sou um pensamento e uma forma pensamento. Sou o real e o irreal
detectado apenas com o abrir e fechar dos meus olhos. Sou nada e
sou tudo, dependendo apenas do ângulo de quem me observa.
Sou um pouco de tudo fundido na mente e guardado em pastas com
as etiquetas trocadas, confundindo as respostas das minhas
buscas insanas. |