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SONHO/REALIDADE
Donna Crystal
Vou ao mercado e compro CD`S , estes são em sua totalidade de músicas
clássicas. Tenho ao meu lado, minha filha e uma amiga dela. Estou
eufórica, ansiosa, quero chegar em casa o mais rápido possível e me
deleitar ao ouvi-los.
Minha filha em seu modo natural de falar diz: “você é a única pessoa pobre
que eu conheço que gosta deste tipo de música” ao que sua amiga responde:
pelo menos ela tem o espírito rico e quando se casar com um homem
rico, não terá nenhum problema em se adaptar.
Acho graça. A seus modos as duas estão condicionando o gosto pela música
clássica com o poder do dinheiro, só que na ordem inversa. Digo qualquer
coisa para conciliar a opinião das duas e mudamos de assunto.
Estou agora aqui sozinha ouvindo um dos meus CD`S, especificamente CHOPIN,
simplesmente lindo! Mais que lindo, não existem palavras que conheço que
consigam explicar a sensação que suas músicas transmitem para mim.
Transcendo, vou além do infinito e aumento a minha capacidade de amar,
minhas energias se transformam e aumentam tanto que tenho a sensação estar
crescendo, crescendo... e quanto mais cresço mais leve vou ficando e se
não me seguro, flutuaria coma maior facilidade.
Começo, então, a imaginar em que estágio estaria Chopin quando compunha
suas músicas, pretensiosamente, suponho que ele se deitava e viajava em
todas as dimensões, ouvia todos os sons do universo e como estava em
harmonia, ao acordar traduzia em notas musicais terrenas, o mais próximo
possível a grandeza do que havia escutado. Concluí, então, que ele era um
homem generoso e que sem nenhum egoísmo queria que soubéssemos o que havia
além do barulho pesado dos sons ainda lamuriantes de dores e sofrimentos
característicos das pessoas do nosso planeta. Claro que temos também
alegrias e felicidades, nem tudo é negativo.
Viajo em meus pensamentos e acredito que ele olhava para todos os “lados”
dos seres humanos e pensava: vou compartilhar com todos eles a verdade dos
meus sonhos e nos legou estas preciosidades. Escrevo isto e me emociono,
pois só alguém que estava muitos degraus acima, poderia ser tão sensível
e generoso.
Aí, não posso fugir a uma pergunta: CHOPIN é um sonho ou uma realidade?
Todos que legaram ao mundo grandes ensinamentos, exemplos, obras ou
descobertas, tais como; JESUS, BUDA, FRANCISCO DE ASSIS, RENOIR,
BEETHOVEN, MOZART, PICASSO, SALVADOR DALI, EINSTEIN ...ETC., foram
realidade e hoje são sonho ou foram sonhos que nos legaram realidades?
Afirmei certa vez ao “meu terapeuta” que nossas bisavós, avós e mães nos
faziam viver num mundo de sonhos, dizendo que encontraríamos o nosso
príncipe encantado, nos casaríamos com ele e viveríamos felizes para
sempre.
Quando acordamos, descobrimos que estamos deitadas ao lado de um ser
humano comum e criados/educados por estas mesmas senhoras que de alguma
forma, transmitem a eles que todas nós mulheres, somos iguais. Aí o
sonho acaba e temos que conviver com a dura realidade a de que
compartilhamos da companhia do “sapo” e não a do “príncipe”. Me lembro de
que sua resposta foi: príncipes existem Cida, basta que você saiba como
encontra-los. Talvez ele estivesse me dizendo: proporcionalize os seus
sonhos e desejos como contexto de realidade e você por certo o encontrará.
Voltando a RENOIR e aos outros, fico sempre pensando se eles
proporcionalizaram seus sonhos com o contexto de realidade ou se
simplesmente os transformaram em pura realidade. Ou, ainda, se a sua
realidade era tão insuportável que eles fizeram dela um mundo de sonhos e
nos presentearam para sempre.
Com isto não estou dizendo que eles eram perfeitos ao contrário, suas
histórias mostram que tiveram momentos de fúrias, devassidão, ódios,
ressentimentos, dúvidas, etc., afinal habitavam o mesmo planeta em que
vivemos. Nem por isso nós deixamos de admirá-los, quando apreciamos seus
feitos não nos prendemos aos seus excessos e sim as suas grandezas.
Portanto, quando amamos alguém, não estamos fechando os olhos as suas
imperfeições. Não temos a pretensão de que sejam perfeitos, apenas
conseguimos vislumbrar que entre todas as suas falhas, que também são as
nossas, existem qualidades bastante para serem admiradas e o mais
importante é que esta descoberta gera afinidade e respeito. De todo este
contexto é que advém o desejo. Para mim, é impossível desejar alguém que
não tenha conteúdo suficiente para ser admirado. Não se ama o nada!
Se não é com este sentimento que se capta a essência da energia positiva
do amor e se quem eu amo não tiver a sensibilidade para entender que eu
só consigo me entregar ao desejo, se ele for a fonte inspiradora dos meus
sonhos transformada nesta realidade, é porque ele não entendeu nada de
mim. E se nada entendeu é porque não corresponde com a afinidade
indispensável para a concretização da realização do desejo. Se assim for,
não vale a pena tentar.
Tudo o que quero pode ser vivido mil vezes ou apenas uma vez, mas tem que
ser por inteiro. Não considero que isto sejam ideais, ideais são as
expectativas irrealizáveis. Posso considerar que sejam sonhos e sonhos se
realizam em todos os momentos das nossas vidas, sem sonhos não há
realidade. |