RETALHOS

 por Donna Crystal

 

Busco nas lembranças, meus sonhos sonhados, meus momentos vividos, meus desejos contidos, meus gritos calados...

 

Me encontro fechada, trancada sem ar. Estraçalho meus vidros, me corto em pedaços. Junto meus cacos, levanto a cabeça, olhando bem alto. Sou uma águia. Busco meu penhasco, ensaio o meu vôo e me lanço no espaço.

 

Vôo em minha liberdade, sobrevôo o oceano e encontro minha ilha. Sinto-me só. Busco respostas, sobram perguntas. Peço socorro.

 

Olho no espelho e me reconheço desconhecida. Quem é esta mulher que eu vejo refletida? Quando foi que a perdi? O que será mesmo que ela sente?

 

Ela me confunde e me surpreende, revira baús, se enche de coragem e se recolhe com medo.

 

Despreza os limites, mas se fecha em círculos. Vislumbra horizontes, mas segura seus passos. Conhece o infinito dos seus sonhos, mas pára no abismo dos seus pesadelos.

 

Sou uma mulher coragem no meio dos meus medos. Quero me esticar inteira e me despir desta roupagem. Quero me transformar em energia, me misturar ao vento, ser somente poesia.

 

Quero pisar a terra para impulsionar meu salto, alcançar as estrelas, me fixar no alto e fazer parte do brilho.

 

Vou paralisar meu corpo e soltar meu pensamento, vou banhar-me na fonte dos desejos e compreender minha alma. Vou desprezar o homem comum e conhecer o amor do poeta.

 

Vou ampliar o relógio da vida e diminuir os minutos de espera, vou dividir minha semana e multiplicar a minha hora.

 

Enfim, quando terminar a minha colcha, quero conhecer cada retalho.

 
 
 
 

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