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QUATRO PAREDES
por
Donna Crystal
Ontem como todos os dias, me
preparei para o trabalho, só que fiquei pronta aproximadamente 5
minutos mais cedo e saí para esperar minha carona e, para
variar, é só ficar pronta mais cedo que a carona atrasa.
Estava levando para a
concessionária duas caixas de pinhas para os enfeites de natal
da loja e, nesta da carona atrasar, tive que entrar e ligar para
saber quem viria me buscar. Assim sendo, levei as caixas para
fora, para dentro e depois para fora de novo.
Enquanto esperava, observei
algumas pombinhas que estavam na calçada e na rua. Umas comiam
qualquer coisa encontrada pelo chão e outras bebiam naturalmente
da água que corria na rua encostada na calçada.
A minha primeira sensação foi
de sentir pena da precariedade da alimentação a que se
sujeitavam, mas deixei de racionalizar e passei a pensar na
liberdade que elas usufruem, resultado de não possuírem as tão
famosas quatro paredes.
Uma vez que não necessitam
das quatro paredes para viverem, não acumulam tralhas e, não
acumulando estas tralhas, estão livres para irem e virem como e
quando quiserem.
Observei suas penas e, para
justificar a minha “prisão inteligente”, pensei no quanto calor
elas deveriam sentir e não poderem tirar as “roupas”, mas
novamente constatei que não precisam trocar as roupas,
simplesmente voam para os lugares que o clima se adapte às suas
“roupas” e não o contrário.
Aí fiquei imaginando as
maravilhas de lugares que elas devem conhecer. Voam para longe,
sobrevoam o local escolhido e simplesmente pousam e ficam
enquanto lhes convém, para em seguida alçarem novos vôos e
conhecerem novos lugares.
Então percebi o quanto a
palavra “inteligência”, justifica nossas loucuras, prisões,
ganâncias, etc.
Esta denominação deve ter
sido criada por algum comerciante ou algum líder religioso que
não enxergava nada além das coisas materiais, porém com um poder
de persuasão absolutamente incrível, pois convenceu a todos que
eram livres de que, o bom era sentir-se preso e o quanto mais
preso mais seguro,e este sentimento foi sendo transmitido de
pessoa para pessoa, imagino até que algum sábio deva ter tentado
dissuadi-los, mas não devia ser “moderno” pensar com sabedoria,
afinal a “aparência” da nova verdade exigiria menos caminhadas,
menos cansaço, pois não teriam que se deslocar para lugares
distantes a procura de alimentos, água ou climas razoáveis.
Começaram, então, a construir
sistematicamente nossas prisões. Acredito mesmo que logo depois
perceberam a bobagem da decisão tomada, mas ninguém teve coragem
de voltar atrás. Não seria bem visto, afinal a esta altura, o
comerciante ou o líder religioso já deveriam estar tão ricos e
famosos que não seria “inteligente” se oporem às suas opiniões.
Perdemos definitivamente
nossas penas, construímos pesadas “quatro paredes”, que foram
ficando insuficientes e nos pusemos a construir mais e mais
“quatro paredes”, até que começamos a valer pela quantidade de
“quatro paredes” construídas, de objetos inúteis e armazenagem
de alimentos que não conseguiríamos consumir, mas era status e
os menos “quatro paredes” começaram a bajular os mais “quatro
paredes” e então aprendemos a conviver orgulhosamente com as
nossas “prisões” materiais. Aí já conhecemos o novo sentimento
“orgulho”, determinamos, então, a nossa prisão mental e
espiritual.
E aqui estou eu, carregando
grandes caixas, vivendo em várias “quatro paredes”, quando, na
realidade, nunca ocupo mais que uma “quatro paredes” de uma só
vez. Neste momento, senti uma enorme vontade de ser uma pombinha
e desfrutar com toda a intensidade da denominação de ser um
animal irracional (não inteligente), poder simplesmente balançar
as minhas “penas”, me desobrigar de todas as tralhas, alçar vôo
e conhecer este imenso e maravilhoso cenário mundial criado por
DEUS.
Nunca me lembro de nenhum
outro momento que tenha sentido tanta inveja de alguém como
senti naquele momento em que entrava no carro com as “caixas” e
deixava as pombinhas no seu mundo de sabedoria e liberdade. |