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FALANDO SOBRE O CUIDADO NO PSICODIAGNÓSTICO
por Rosana Ap Borges Poiani
Antigamente as pessoas para
entrarem no mercado de trabalho pensavam em estudar até a quarta
série primária ou quando muito até a quarta série ginasial. Após
alguns anos os famosos cursos técnicos entraram no mercado com
força total, todos queriam se especializar em alguma mão de obra
específica. O tempo foi passando e cada vez mais as exigências
acadêmicas foram aumentando; cursos de aperfeiçoamento,
especializações, pós-graduações, mestrados, doutorados entre
outros são necessários para a inserção e continuidade do
indivíduo no mercado de trabalho. Penso que todos esses títulos
são muito importantes para que as pessoas tenham uma boa
formação teórica e para que saibam realmente dominar o assunto
estudado, mas penso também que antes de tudo isso o mais
importante é não esquecer o lado humano quando o assunto está
dentro das “áreas humanas”.
O livro do Professor Leonardo
Boff “Saber Cuidar” (1999), tão brilhantemente descreveu que “O
cuidado serve de crítica à nossa civilização agonizante e também
de princípio inspirador de um novo paradigma de convivialidade.
O que se opõe ao descuido e ao descaso é o cuidado.
Cuidar é mais que um ato: é uma atitude. Portanto, abrange mais
que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representam uma
atitude de ocupação, preocupação, de responsabilidade e de
envolvimento afetivo com o outro”.
Mas, o que tudo isso tem a
ver com o curso que fiz sobre Teorias e Técnicas de Avaliação
Neuropsicológica? Tem tudo a ver, pois a essência do curso que
ficou para mim foi a responsabilidade e comprometimento que
exige uma avaliação desta. Por isso falei dos títulos e
certificados, nem sempre diplomas são sinônimos de capacidade. O
que vejo no mercado hoje é muito profissional em busca de
satisfação financeira sem se importar com o que estão fazendo
com o outro, profissionais que atendem um paciente em
cinco minutos já enquadrando o indivíduo dentro de uma
categoria, sem ao menos saber direito o que ocorre com ele.
O psicólogo deve ter um
cuidado especial ao fazer um psicodiagnóstico comum e um
cuidado redobrado ao fazê-lo dentro de uma avaliação
neuropsicológica. Não podemos colocar todos dentro de uma
caixinha quadradinha como se todos fossem iguais, muito menos
sair distribuindo “receitas de bolo” na vida das pessoas, temos
antes de tudo que pensar qual a semente que estamos plantando na
vida desse indivíduo. Ver o ser humano como um todo dentro de
uma visão biopsicossocial é fundamental para um bom diagnóstico.
Vemos essas barbaridades
acontecerem nas escolas. É muito comum crianças com dislexia,
por exemplo, sendo tratadas como “burrinhas” ou crianças
hiperativas, sendo tratadas como “mal educadas”. Sei de um caso
que a professora colocou a criança na sala de aula para ler na
frente de todos, pois estava cansada de ensinar e a criança não
aprendia, a mãe em casa não tinha mais paciência e fazia as
lições com o filho com o chinelo em cima da mesa; penso ser
desnecessário dizer como essa criança disléxica estava se
sentindo quando veio para a terapia.
Outro caso foi de uma criança
com TDH, depois de ir parar na diretoria quase todos os dias,
ficar diariamente de castigo dentro da sala de aula, levar
muitas surras e castigos em casa, ir parar no conselho tutelar a
pedido da escola... arrumou-se um último recurso: levá-la para
um psicólogo, quem sabe ele dá um jeito. Desnecessário
novamente relatar como essa criança hiperativa se encontrava no
início da terapia.
Os exemplos são muitos e
acredito que todo bom profissional deva ter muitos casos a
relatar, mas o importante é sabermos qual a nossa
responsabilidade nisso, pois muitas crianças e adolescentes que
estão em terapia, não estão recebendo o tratamento adequado, ou
porque o psicólogo não fez o diagnóstico correto, ou por falta
de comprometimento ou por desconhecer o assunto.
O curso de teorias e técnicas
para uma avaliação neuropsicológica me fez pensar mais na
responsabilidade que um psicólogo deve ter mediante um paciente.
Se você não conhece, pesquise, se depois disso ainda se sentir
inseguro, indique o paciente para um outro profissional, ninguém
precisa, nem tem obrigação de saber de tudo na vida.
A experiência dos estudos de
casos durante o curso mostrou o quanto é difícil mensurar uma
bateria de testes no final da avaliação. Nos ensinou a pensar
qualitativamente ao fechar um diagnóstico para um relatório
final, pois cada caso é um caso, e precisamos conhecer a fundo a
história do paciente. Mostrou-nos o quanto é importante uma
anamnése bem feita e sem pressa e nos ensinou a pecar pelo
excesso e nunca pela falta.
A professora Etelvina foi
brilhante ao nos passar o perigo dos diagnósticos precipitados
e o quanto um resultado dessas avaliações podem condenar
uma pessoa ao enquadramento de incapacitada para o resto da
vida.
Tive o cuidado em
passar todo o conteúdo dos testes novamente com uma amiga,
também psicóloga, e verifiquei o quanto é difícil estar sentada
como paciente, daí a importância na hora da mensuração, pois não
fui bem em alguns testes e nem por isso estou incapacitada.
A psicologia, principalmente
a psicanálise, trouxe os testes como ferramentas de trabalho,
mas ferramentas de trabalho nem sempre são necessárias.
Trabalho com a Gestalt
Terapia e essa abordagem não trabalha com testes com a
finalidade de quantificar, mensurar ou enquadrar um paciente e
sim com o objetivo de qualificar, trazer mais conteúdos para o
trabalho terapêutico. Hoje estamos repletos de muita teoria e
nomenclaturas novas com o objetivo ao que parece de confundir
muito mais do que ajudar.
Muito mais importante do que
fazer um enquadre com nomes e números específicos, penso que é
humanizar o atendimento, cuidando do paciente e
orientando da melhor forma possível. Como disse Leonardo Boff,
cuidar é mais que um ato, é uma mudança de atitude para
com as pessoas.
Várias vezes atendi crianças
que já haviam passado com outro profissional que na primeira
sessão perguntou se ia ter que novamente desenhar uma casa, uma
árvore e uma pessoa. Diante disso me questiono se é necessário
realmente aplicar sempre a mesma coisa, pois existem várias
formas de se trabalhar com crianças, uma delas é
fenomenologicamente, dentro de uma abordagem gestáltica.
Outro cuidado que
penso que todo psicólogo deva ter é com as famosas
interpretações, que são seguidas de manuais como se todos
fossemos iguais. Em seu livro “Descobrindo Crianças” (1980),
Violet Oaklander, que trabalha dentro de uma abordagem
gestáltica, faz um alerta quanto às interpretações. Relata um
desenho de uma menina de 13 anos, que fez um desenho espremido
numa metade da folha deixando a outra metade em branco. Com
certeza as interpretações seriam muitas e de acordo com cada
psicólogo e dependendo do que estiver escrito no manual. Quando
questionada sobre isso a menina apenas respondeu: - Esta parte
em branco é a minha vida quando eu crescer. Como não sei o que
será, então eu não pus nada.
Isso nos mostra a importância
do cuidado ao fazermos qualquer tipo de avaliação, seja
com crianças, adolescentes, adultos ou idosos.
Deixo uma pergunta para que
possamos sempre pensar no assunto: Como hoje em dia avaliarmos
um desenho de uma casa diante de tantos tipos de construções que
vemos? Se uma criança desenhar sua casa sem janelas na frente (o
que já aconteceu comigo), com certeza isso seria interpretado
como um problema. E se a casa da criança é aquele tipo de casa
toda fechada na frente, sem janelas e com um jardim, e aí?
Penso que o psicólogo deva
jogar fora seus pré conceitos, pois o mundo já está cheio deles
e cuidar sempre do cuidado (atitude).
Texto elaborado por Rosana Ap.Borges Poiani,
psicóloga clínica, psicossomatista,
para conclusão do curso sobre teorias e técnicas
para uma avaliação neuropsicológica.
e-mail – rabpoiani@yahoo.com.br |