PROJEÇÃO ASTRAL?

Donna Crystal

Subo a montanha, estendo minha visão, admiro a paisagem que se estende logo abaixo e ao longo do horizonte, mas não quero divagar, quero pisar e sentir a energia que dela se exala.

 

Deito-me na terra seca, rolo em sua superfície e me permito deslizar encosta abaixo. De repente não somos mais montanha e Cida, nos integramos, somos única, mesma matéria e mesma energia.

 

Apuro meus sentidos e vou adentrando cada vez mais em suas entranhas, sinto-me uma massa feita de barro. Apenas minha mente continua desperta e desfrutando de toda esta integração.

 

Relaxo  e adentro ainda mais. Encontro as rochas firmes que de início parecem intransponíveis e tendo a me retrair. Porém, logo penso: sou aquilo que imagino ser e de imediato me transformo em rocha. Sinto inteiramente  o peso e a firmeza desta matéria.

 

Como ainda estou pensando como humana, acredito ser impossível me mover com toda esta densidade, mas logo me recordo que o meu arquivo de memória pode ser mudado e mesmo sendo rocha me levanto  e me sinto leve, caminho por segundos sentindo toda esta nova “realidade” e percebo o quanto sou forte.

 

Já sou parte integrante, absoluta, desta barriga protetora, mas possessiva. Lembro-me então que posso muito mais, deito-me com a intenção de voltar ao meu estágio anterior, ser barro novamente.

 

Baixo novamente o nível das minhas vibrações e ouço ao longe o ruído de água correndo. Imagino o seu destino e imediatamente desejo ser parte desta corrente, tão logo penso, já me encontro  no local.

 

E agora, como posso me transformar em água se ainda sou uma rocha? Novamente me lembro de desprezar os meus registros arquivados com base  na consciência coletiva, me encosto de encontro às pedras por onde escorre a água e vou me permitindo uma nova transformação.

 

Primeiramente volto a ser barro e ainda encostada, deixo que a própria água vai desmanchando a massa que me reveste. Olho para baixo e vejo a sua cor alterada, sei então que estou sendo destituída de toda e qualquer matéria envoltória que contenha algum peso substancial. Já não me assusto, nem me deixo tomar pelo medo, apenas espero e aguço ainda mais os meus sentidos. Não posso e não quero perder a consciência, desejo desfrutar de cada segundo desta nova sensação.

 

Gradativamente vou sentindo que me estico e não tenho noção de quantas vezes já aumentei em relação a minha altura do corpo matéria. A leveza que sinto agora em muito se diferencia de quando me transformara em rocha.

 

É algo sutil, mas ainda sinto que sou matéria. Lembro-me então que não sei nadar e quase sou tomada pelo pânico, mas imediatamente me recordo que sou água e, portanto, não existe a menor possibilidade de me afogar em mim mesma. Tranqüilizo-me novamente e me deixo  conscientemente desfrutar de toda a intensidade da alegria em deslizar terra adentro, sem conhecer o obstáculo futuro, nem onde iremos chegar.

 

Desço tranqüila, pois as águas que me precederam já fizeram todo o trajeto talvez por milhões ou bilhões de anos e, em momento algum encontro raízes que me prendam ou pedras que me machuquem. Sou inteiramente livre. Desvio naturalmente das rochas, passo por fendas tão minúsculas que conscientemente jamais ousaria pensar ser possível.

 

Não tenho a menor consciência de quantos metros ou quilômetros eu já deslizei neste desfiladeiro, só o que sei é que ele parece não ter fim. Mas, então, sinto que a quantidade de água parece ter aumentado e instintivamente entendo que me juntei a um rio que desliza na mais absoluta profundeza e que lamentavelmente nada verei para recordar em face da escuridão em que nos encontramos.

 

Neste exato momento acontece algo extraordinário, tomo pleno conhecimento de que não preciso da visão material e que tenho a visão ilimitada da minha mente que se encontra totalmente desperta. Minha emoção cresce de tal maneira que preciso urgentemente me acalmar para não retornar de imediato e perder todo este novo conhecimento, o qual absorverei e levarei comigo para todo o sempre.

 

Apenas alguns segundos se passam e sou novamente dona dos meus sentimentos. Começo então a explorar o interior deste rio. Inacreditável a quantidade de espécie de vidas que o habitam, mas novamente tomo conhecimento da limitação e que só consigo ver aquilo que tem forma, mesmo que não consiga identificar tudo e todos em função da minha ignorância das espécies.

 

Mas neste momento isto não importa, num futuro talvez, agora não. Já estou desfrutando o bastante e não quero filosofar, nem mesmo me recriminar, isto  agora seria de uma pobreza imperdoável.

 

Faço voltas meio bruscas na água para chamar a atenção destes novos conhecidos e estes se assustam. Arrependo-me, não tenho o direito de interferir em seu habitat, devo apenas observar e deixar que sigam a sua rotina.

 

Perco por completo a noção do tempo, tudo está perfeito demais. Não quero nem mesmo questionar como sobrevivem em tamanha profundeza e de onde buscam o oxigênio para manter a água em leve movimento e a vida de todos estes seres. Tenho medo de que ao racionalizar, deixo de participar do espetáculo deste momento em que estou vivendo.

 

Até então, quase tudo que consegui ver tem de forma direta ou indireta com os catálogos restritos ao mundo em que habito. Fico quieta, imóvel e ligo as minhas antenas, preciso saber se alguém além de mim está ocupando este mesmo espaço no mesmo instante em que ali estou. Desligo-me de todo o resto e me fixo neste único objetivo.

 

Não vejo ninguém estranho ao meio, mas começo ouvir muito distante e depois por todos os lados, sons incompreensíveis aos meus sentidos, porém, tenho plena convicção de que todos estes seres estão simultaneamente se comunicando e, inclusive, podem estar sentindo a minha presença. A intensidade desta revelação me causa tamanha emoção, que sinto arrepios e imediatamente meus sentidos estão em alerta.

 

Neste momento, novamente consciente de quem sou, não posso ignorar o turbilhão de perguntas formuladas pela minha mente sedenta de conhecimento, mas não tem base alguma que possa me ajudar na tentativa de traduzir alguma coisa de tudo o que ouvi. Sinto que se tivesse de posse do meu corpo físico teria caído em prantos, tanto pela emoção quanto pela frustração.

 

Sinto-me absolutamente ridícula e horrivelmente insaciável, tudo é tão lindo e humanamente irreal, que a única coisa que deveria estar sentindo era uma alegria sem proporção. Sim, é isto mesmo e os meus sentimentos estão outra vez sob controle. Novamente a leveza se apodera de mim e sinto vontade de voar.

 

Imagino-me na superfície do rio e instantaneamente nela estou. Deixo-me flutuar por longos e deliciosos (minutos)? Se aqui o tempo não existe, como posso querer calcular? Deixo de pensar nele e volto o pensamento para mim mesma, quero mais, muito mais.

 

Quero invadir ainda mais as entranhas da terra, porém quero que a  minha mente conduza tudo de forma que a minha visão esteja voltada para cima, como se estivesse deitada de costas e não quero que os meus pés estejam à frente e sim a minha cabeça. Preciso, literalmente, ver primeiro e sentir depois.

 

Lembro-me então, de que sempre quis ver de perto o interior de um vulcão, mas imediatamente dou a ordem de que primeiro eu quero estar a alguns metros de distância para poder observar todas as nuances das labaredas da sua fornalha.

 

A velocidade com que me desloquei, os espaços vazios que percorri, os cheiros de gases que senti, as rochas e mais rochas, rios praticamente parados, porém absolutamente limpos, enormes galeras de materiais não identificáveis que eu jamais ousaria tentar descrever. Desconheço o vocabulário capaz de me habilitar a esta façanha.

 

Cheguei finalmente ao meu objetivo, mas ao visualizar aquela imensidão de caldeira que ardia, fui acometida de um terror entre o esplendor da beleza e da força aterradora que dele se desprendia que não consegui me conter e infelizmente retornei ao meu corpo.

 

Minha aceleração cardíaca deveria estar a mil e eu transpirava como se tivesse travado uma batalha. Estou lamentando até agora por este descontrole, mas de qualquer forma, sei que fui generosamente presenteada ao conseguir fazer esta linda viagem.

 
 
 
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