PESADELO

por Paulo Madjarof Filho

O automóvel recém comprado encontrava-se num estado deplorável – como um papel amassado com a mão, apenas sugerindo sua forma original. Ainda era possível ver sobre o que restara do banco do passageiro a sua maquina fotográfica juntamente com os livros e papeis de anotação - relacionados ao seu trabalho. Na rua – uma ladeira – muitos outros carros estacionados. Outros também haviam sofrido avarias, mas o seu, estava irrecuperável. Parecia ter sido esculpido a marteladas por um martelo de borracha.

 

Ninguém viu nada, ninguém sabia de nada. Uma senhora limitou-se a comentar sobre o barulho ouvido. Apenas isso!

 

Seguro? Não, não havia sobrado dinheiro para isso. Comprou um automóvel popular por absoluta falta de opção. O valor foi integralmente financiado pela necessidade de adequar as suas possibilidades econômicas. Pensava agora na continuidade do pagamento de um bem que não mais possuía.

 

Chorou. Quis chorar mais e muito. Sentiu-se preso, sufocado por suas lagrimas, como uma torneira de grande vazão que apenas respinga. Um grito preso.

 

Quis sair correndo, avisar alguém, mas não podia abandonar as sobras do que um dia chamara de “meu carro novo” – E nada mais restara de novo!

 

Viu quando sua mãe acompanhada de duas pessoas se aproximava. De certo modo, sentiu-se amparado – podia chorar mais agora. Chorou no amparo materno e, sob este amparo, despertou de seu sono vespertino com o rosto e o travesseiro molhado.

 

Pois é doutor, me diga o que tudo isso quer dizer?

 
 
 
 

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