PENSANDO NA VIDA...DEPOIS DOS 40!

Por Sílvia Rodrigues



Meu telefone tocou logo cedo, atendi ainda sonolenta, sem atentar-me à data que o calendário trazia.

 

Uma voz suave cantarola: "Parabéns a você, nesta data querida..." e me tira da letargia do sono. É meu aniversário! Puxa vida, 46 anos já!

 

Ainda com fragmentos de sonhos grudados no meu pijama e emocionada com o carinho vindo pelo telefone, passei a pensar sobre o que significaria esta data para mim.

 

O questionamento foi tão contundente que busquei até o dicionário, o que será que ele, tão sábio, traria para descrever a palavra "aniversário"? E, para meu espanto, estava lá: "Dia em que se completa anos!" Fiquei indignada, afinal, no meu entender é um significado muito estreito para tão ampla dimensão!

 

Aí sim, os pensamentos vieram aos milhares, será que estaria, neste meu dia, apenas completando mais alguns anos ou comemorando uma vida vivida intensamente em pleno curso de ganhos e perdas?

 

Oscilando em minhas contradições, num determinado momento comecei a sentir uma inquietação que parecia me dizer que a leveza da alternância dos dias, o incessar discreto do tempo finalmente estariam me remetendo ao fim da linha, ao fim do caminho e ao terrível GAME OVER!

 

Em contrapartida, o meu outro lado que graças a Deus não se esgotou de mim, me mostrava a existência, mesmo que tímida e submersa, de uma força, uma energia revirando-se dentro de mim para neutralizar a cara fria e feia do medo da finitude.

 

Mais do que rapidamente, fiquei questionando-me sobre o que fiz eu dos meus dias. Percebi que em muitos momentos, herdado quase que geneticamente de minha mãe pratiquei a arte do recato e da invisibilidade, a de ser apenas coadjuvante no teatro maior da vida. Vivi assim, nos bastidores, porque assim me ensinaram ser o correto e foi através desta vidraça que me ensinaram a olhar. E até os 30 anos eu ainda não tinha tido audácia suficiente para resvalar no proibido e desfazer-me deste papel.

 

Ainda à espreita da maturidade entendi que sou pura contradição, e o que antes me incomodava nesta falta de linearidade. Hoje entendo que estas contradições sinalizam vida e me fazem ser o que sou hoje. Ora plena de luz, ora numa sombra absoluta e assustadora, ora multicolorida, arco-íris, ora monocromática, geralmente em tons de marrom, ora mergulhada nas profundezas, ora na superfície, recuperando forças ou rebelando-me descaradamente.

 

Ô dualidade! Será isso que faz a existência humana?

 

Hoje, percebi também que tenho muito a comemorar, afinal a idade não só me trouxe rugas e uns quilinhos a mais, trouxe-me sabedoria, entendimento, aceitação e audácia também.

 

Peregrinei por um caminho e vivi de um jeito que não era o jeito meu, mas o milagre da mudança está ao meu alcance e, apesar de toda ambigüidade e contradição, não quero mais desperdiçar tanta energia tentando me colocar num falso figurino que não é o meu número, nem desperdiçar os meus dias tentando disfarçar o medo do novo e do desconhecido. Quero a vida toda, por inteiro, se puder intensa, com sorrisos cheios de luz...e lágrimas também, mas só se forem de pura emoção.

 
 
 
 

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