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O POETA
por Donna Crystal
E caminha o poeta no mundo das pedras, observando a moldura e
sentindo o perfume deste mundo só seu. Observa o azul de um céu
muito límpido e se recusa a pensar que é apenas uma mistura de
gases que o faz assim tão belo.
Põe os pés no chão para se sentir parte da terra, mas seu
pensamento se recusa em ficar e foca a distância que o separa da
verdade que apenas o seu íntimo conhece.
Caminha sob o sol escaldante procurando uma sombra que atenue o
desejo de abrir os seus braços e voar pra bem longe, muito além
do horizonte que suas vistas alcançam.
Não tem um caminho certo a seguir, pois poeta que se respeita
não tem rumo, só propaga a lua, as estrelas, a música, o amor, o
perfume, a saudade, e a beleza com um sentimento abrangente de
ternura e mistério.
Adormece ao relento a espera de um milagre, mesmo não sabendo o
que está esperando e deixa que caia a chuva e molhe o seu corpo
numa entrega total e aguarda o amanhecer pra saber o que de novo
o dia trará.
Ao acordar sonolento imagina que a neblina é o grande manto que
une a terra ao céu numa sublime magia e sonha acordado com o
acorde das harpas a fluírem no universo numa música de anjos a
embalar os seus sonhos.
O poeta é feliz mesmo em sua infelicidade, é a alma que
transcende ao mundo do nada buscando as respostas que jamais
encontrará enquanto humano.
É o que bebe a água da fonte imaginando o caminho que ela
percorreu para saciar sua sede e se assusta com o barulho do
trovão que fere seus ouvidos e desequilibra a sua sensibilidade.
O poeta olha pras nuvens e as enxerga como flocos de algodão
servindo de apoio para que o vento possa embalar sua amada no
dia em que ela resolveu se afastar, mas não se esconder.
O poeta é aquele que ouve o sino tocando e entende como ninguém
a mensagem codificada que chegou do além, mas que a deixa partir
pra não perder seu encanto numa vulgar tradução.
O poeta diz o que sente mesmo sabendo que na terra da razão
ninguém o entenderá. É o que chega e saí sem ser percebido, mas
que captou o sublime mesmo num mundo fingido.
É o que levanta a taça num brinde ao amor eterno mesmo sabendo
que todas as histórias têm um fim e que troca à lágrima por um
sorriso, pois entende que outra nova história começa na próxima
esquina.
Mas é o único capaz de derramar o pranto no momento do adeus sem
se sentir constrangido e que faz do amor o universo a dar
sentido a sua vida.
É o que pega o trem e se permite descer em todas as estações sem
medo do desconhecido, pois quem possui a essência não teme a
dor, muito menos a morte.
O poeta é aquele que não diz coisa com coisa, mas que tudo se
encaixa numa sintonia inexplicável com o próprio infinito. |