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Elogio ao Ócio - resenha crítica
por Donna Crystal
Ao iniciar a leitura
do livro “ELOGIO AO ÓCIO” de Bertrand Russell, acreditava encontrar
um conteúdo irreverente, ironizando o homem comprometido com o excesso de
trabalho e enaltecendo o ócio na extensão do seu sentido. Porém, encontrei
a obra de um homem sério e preocupado com o caminho em que segue ou que se
conduz à sociedade.
Quando advoga o “ócio” defendendo apenas
quatro horas de trabalho por dia, não está em absoluto contra o
progresso coletivo, muito menos incentivando a preguiça.
Trabalhando apenas quatro horas, o individuo teria tempo para o
lazer, a família, o estudo e a cultura. O homem. como criatura,
estaria objetivando o seu comprometimento com a vida no sentido
de “ser” e não de “ter”.
A preocupação com o “ter” seria somente com
o necessário para a sobrevivência, não haveria necessidade de
acumular bens e valores dos quais não terá tempo para utilizar
numa jornada de doze a quatorze horas por dia.
Dentro do conceito atual, o estudo deixou
de existir pelo simples prazer do conhecimento, do enriquecimento pessoal
e espiritual. Passou a ser basicamente direcionado para o mercado de
trabalho.
O conceito do engrandecimento que culminou
no apogeu do sentido atribuído ao “trabalho” foi habilmente
implantado nas mentes humanas pelos grandes empresários,
levando a classe trabalhadora a acreditar neste conceito quase
como uma religião. A conclusão óbvia do resultado obtido é:
enquanto a maioria “trabalha” a “minoria” enriquece.
Este livro foi editado pela primeira vez em
1935 portanto, quatro anos antes da segunda guerra mundial, e se
tratando de um professor, filósofo e indivíduo profundamente
conhecedor da historia da humanidade, vale observar a sua
constante preocupação com as guerras e as projeções sociais,
militares, econômicas e políticas, segundo sua previsão
futurísticas em nível mundial.
Sua posição não se prende apenas em
observar e criticar, ao contrário, opina, tece paralelos e se
compromete ao indicar novos rumos em todos os segmentos.
Quanto a sua visão sobre as formas de
governo, deixa clara sua preferência pelo socialismo, chegando
mesmo a dizer que o mundo precisa naquele momento de “socialismo
e paz”. Porém o socialismo a que ele se refere não seria uma
condição imposta, mas totalmente democrática.
Um governo responsável e com a economia
fortalecida dentro dos preceitos fieis do socialismo, todo
cidadão teria seu emprego e seria pago pelo governo. Mesmo
quando houvesse desemprego, mas fosse comprovada a vontade de
trabalhar do indivíduo, este continuaria a receber o seu
salário. Resumindo, não havendo formação de riquezas
individuais, a distribuição de renda seria mais justa,
possibilitando melhor qualidade de vida para todos.
Seu maior desprezo está para o comunismo e
o fascismo, em especial para este último. “Minha objeção básica ao
fascismo é a seleção de uma parte da humanidade como a única relevante”. A
sua opinião conclusiva sobre comunistas e fascistas que carregam em suas
mentes imagens totalizantes da sociedade, distorcendo o indivíduo de
maneira a adequá-los aos seus padrões é: “O efeito inevitável da moldagem
artificial dos indivíduos é a produção da crueldade ou da indiferença,
talvez as duas alternadamente. E de uma população com essas
características não se pode esperar nada de bom”.
Interessante, também, observar sua visão a
curto, médio e longo prazo. Em curto prazo ele previu, entre
tantas coisas importantes, que o maior erro do Hitler era
esquecer a existência dos Estados Unidos.
Em médio prazo, pude entender que a máquina
industrial ao ser criada deveria libertar o homem. Mas os
interesses desenfreados dos grandes industriais somados à falta
de conhecimento e parceria do mercado interno e externo,
acabariam por fazer do homem o seu escravo.
Em longo prazo, ele sinaliza a conveniência
de um “governo social mundial”.
Quanto ao erro do Hitler em relação aos
Estados Unidos, já pudemos comprovar com sua participação decisiva para o
fim da segunda guerra mundial, possibilitando que este emergisse e se
mantivesse até hoje como a maior potência do nosso planeta.
A automatização industrial é hoje a nossa
realidade. Homens e máquinas disputam a sua soberania. O homem
cria a máquina e esta toma o seu emprego. Profissões de destaque
foram extintas e outras tantas estão sendo relegadas a segundo
plano. A população aumenta, o emprego diminui e o caos tende a
se generalizar pelo mundo inteiro. Resultado de uma mudança
muito rápida, indiscriminada e sem nenhum planejamento social.
Novamente concluímos que a prioridade é sempre o “eu” sem
nenhuma preocupação com o “nós”, deixando a grande maioria na
miséria absoluta. E já que estamos falando em ócio, nenhum
terreno é mais fértil para o vício e o crime do que a mente
ociosa de um ser humano carente de suas necessidades básicas e
impedido de gerar seu próprio sustento e de sua família..
De imediato, quando considerei a
possibilidade de um “governo social mundial”, achei a idéia
estapafúrdia. Mas talvez, há quarenta ou cinqüenta anos, o
homem, ignorante como eu, achasse igualmente estapafúrdia a
idéia da máquina substituir o homem e isto hoje é inquestionável
e irreversível.
Agora, aqui sentada, re-analisando as
mudanças significativas ocorridas no último século e na
iminência de uma guerra cujas proporções não se pode prever,
começo a ponderar a possibilidade de que, no prazo de cinqüenta
ou cem anos, possa sim ser esta, a nova realidade política e
econômica do planeta.
Ao observar que a capacidade técnica e
industrial de cada país tende a ser muito acima de sua
necessidade interna, e que as objeções econômicas do
mercado externo inviabilizam as negociações dos produtos
industrializados (já era esta a situação vivenciada pelas
indústrias siderúrgicas alemãs, francesas e britânicas no
início do século vinte), fica fácil entender as necessidades de
se promover guerras direcionadas contra os paises detentores de
produtos ou determinado produto que seja imprescindível
para suprir as necessidades da população mundial.
As intransigências das negociações entre
governantes quase sempre radicais, somadas às diferenças étnicas, sociais
ou religiosas, têm mostrado ao mundo que a PAZ é apenas um sentimento
filosófico. Talvez, apenas talvez, acontecendo uma guerra mundial nas
proporções devastadoras que se anuncia, e das quais não duvidamos, muitos
países saiam arrasados e sua governabilidade fique a cargo dos paises
vencedores.
Possivelmente, nestas circunstancias, uma
reorganização econômica, social e política seria inevitável.
Neste sentido, poderíamos conceber a idéia do socialismo
internacional defendido por Russell. Elegendo uma autoridade
(democrática), que representasse os governos envolvidos, e
trabalhando em benefício de todos, poderíamos começar a
visualizar um novo mundo caminhando para o “equilíbrio social e
a paz mundial.”
Não posso terminar minhas considerações sem
dizer que a leitura deste livro vale a pena em todos os
sentidos. O seu conteúdo é envolvente, estimulante, interessante
e atual (os anos passam, mas o ideal e a postura do ser humano
pouco muda). Como já mencionei, o escritor é profundo conhecedor
da história da humanidade e suas observações, na minha opinião,
são de uma realidade cuja autoridade não se discute.
A leitura é fácil, mesmo quando utiliza a
mitologia para o enriquecimento do assunto em questão, tema que
praticamente desconheço. Não senti dificuldade em acompanhar o
seu pensamento. Em alguns momentos consegui, acredito, desfrutar
de alguns comentários que chega deliciosamente próximo do
sarcástico.
Quero encerrar transcrevendo um trecho que
achei simplesmente delicioso, quando ele escrevia sobre a
VERDADE, discorrendo entre critica ou concordância
sobre trabalho, educação, cultura, ciência, poesia, etc...
“Como seria agradável um mundo em que
não pudesse operar na bolsa quem não tivesse passado em provas de economia
e poesia grega, e onde os políticos fossem obrigados a ter sólidos
conhecimentos de história e do romance moderno! Imagine um magnata
confrontado com a questão: ´Se o senhor açambarcasse o mercado de trigo,
que efeito causaria na poesia alemã?´” |