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MORTE
Donna Crystal
Estive refletindo sobre as pessoas em relação à morte. Procuro entender as
frases prontas, tais como: meus pêsames, meus sentimentos e elas me
parecem carinhosas. Aí vêm as famosas: “coitadinha, ela gostava tanto de
viver”, “era tão boazinha, tão bonita, todo mundo gostava tanto dela” e
principalmente quando a grande maioria nos diz “fique tranqüila” ou
“acredite, ela está num lugar muito melhor e mais bonito.”
Esta última frase me parece um paradoxo, pois fico pensando que se de fato
vamos para um lugar “melhor e mais bonito”, por que tanto apego e tanta
determinação em permanecer nesta vida.
Pensei que talvez pudéssemos trazer na memória lembranças de lugares
melhores e mais bonitos e, de imediato, tendi a acreditar que seria
realmente assim. Mas, levando para a lógica do meu próprio pensamento, não
consegui aceitar que fosse tão simples.
Ponderando sobre as possibilidades e acreditando que a natureza não cria
nada que seja inútil, posso considerar que nossos espíritos não são
descartáveis, portanto, existe a probabilidade de que passemos a desfrutar
da vida em outro mundo, aí se explicaria a razão da crença de um mundo
“melhor e mais bonito”.
Porém, se passarmos a observar do ponto de vista religioso, não combina o
fato de conhecermos um mundo “melhor e mais bonito” e estarmos habitando
um mundo pior e mais feio, pois estaríamos admitindo a regressão
espiritual. Quando todas as religiões e até onde conheço, afirmam que os
espíritos não regridem sua tendência é progredir sempre.
O contrário de todas estas ponderações seria o desejo de que possamos ir,
após a nossa morte, para este tão falado “mundo melhor e mais bonito”, o
que me leva a desconfiar novamente da arrogância do “homem inteligente”.
Quando penso neste “homem inteligente” que não acredita na possibilidade
da existência de um DEUS, mas que também não consegue explicar a criação
do universo e que, quando acredita na existência DELE, não se permite ser
menos que sua imagem e semelhança, posso perfeitamente entender porque ele
só aceitaria morrer para habitar lugares “melhores e mais bonitos”.
Normalmente quando penso sobre isto e vejo as atrocidades que se comete
sendo “homens inteligentes” e “imagem e semelhança com DEUS”, com a
pretensão de morrer e habitar os tão famosos lugares “melhores e mais
bonitos”, sinto uma vontade enorme de ser tão somente um animal
irracional, possuidor de instinto e lei de preservação da vida,
respeitando a hierarquia da minha sociedade e sem nenhuma pretensão
divina. Talvez assim eu acordaria de manhã, olharia para o sol nascente e
agradeceria simplesmente por ele estar ali. Jamais reclamaria da chuva ou
do frio, saberia “instintivamente” a necessidade de cada estação e com
certeza quando morresse não estaria objetivando nada além do que
merecesse.
Se aprendêssemos com os animais e fossemos mais humildes dentro da nossa
tão esnobe “inteligência”, talvez quando partisse alguém que nos fosse
muito querido, alguém sabiamente nos diria que ficássemos tranqüilos, pois
ele/ela continuava entre nós, que estava apenas em outra dimensão
descansando um pouquinho até que seu novo corpo entrasse em “produção”.
Questiono, também, onde é que a maioria acredita que fica este mundo
“melhor e mais bonito”. Com certeza absoluta estaria fora do nosso
universo, pois uma vez que não aceitamos a possibilidade de existir vida
em outros planetas, estrelas ou qualquer outro lugar, fica difícil
imaginar pra onde nos mandariam.
Chego à conclusão que a resposta seria para o CÉU, o que novamente me dá
uma vontade enorme de ser um animal irracional, pois nunca consegui
compreender se nesta hora devemos nos elevar a DEUS ou diminuí-Lo ao
homem, pois na minha estreita visão e considerando a existência DELE, não
há limite de distância entre os dois.
Acredito realmente que só começaremos a “progredir” e “habitar mundos
melhores”, quando nos conscientizarmos de que, como seres humanos, ainda
somos “humanos demais”. |