MUNDO MODERNO

Donna Crystal

 

Puxo  a cortina, ilumino o meu palco. Observo a platéia, borboleteante... inexistente. Inicio minha peça. Estou cheia de expectativa ou seria medo? Qual o meu tema? MUNDO MODERNO.

 

Questiono a platéia. O que é mundo moderno? O murmúrio se cala, ouço o som do silêncio. Ignoro as respirações e fecho os ouvidos aos seus pensamentos.

 

Sinto-me só, gostosamente só. Sei que serei assistida por todos, ouvida por poucos e entendida por quase ninguém. Começo então...

 

“Mundo moderno... Mundo moderno...Mundo moderno!”

 

De repente não sei de que mundo eu queria falar. Penso, tenho que pensar rápido, a  platéia me aguarda, não posso decepcionar. O meu silêncio pode representar algo e se for mal interpretado podem me aplaudir. Tenho medo que me aplaudam, prefiro que me vaiem. O aplauso me calaria, a vaia me incentivaria.

 

Penso em falar sobre a viagem à lua, mas me recordo que já foi há tanto tempo... não me parece moderno. Século passado.

 

Vou falar sobre a erradicação das antigas doenças. Que susto, ainda bem que não falei, elas estão voltando uma a uma. Ameaça constante.

 

Puxa! Vou falar sobre as nossas guerras, estas sim são modernas. Caprichamos! Agora temos desde o mais bestial punhal até as bombas atômicas e de nêutrons, sem deixar de citar, é claro, as guerras bacteriológicas e os pilotos suicidas. Fantástico! Estou claramente pensando, agora posso falar sobre o nosso “Mundo Moderno”.

 

Isto sim é atual. Conseguimos com pouquíssimo esforço dizimar milhares de seres humanos de uma só vez... à longa distância. Não somos mais pré-históricos, não precisamos nos expor corpo-a-corpo para eliminar os outros, fazemos com diplomacia e elegância, serviço limpo. Ganho de tempo, economia de dinheiro, excesso de perdas, gritos de dor, choros sem voltas, mais pais sem seus filhos, mais filhos sem pais, mais prostituição, mais fome, mais desespero. Tudo por um ideal. Qual era mesmo o ideal? Alguém se lembra? Como? Perdeu-se pelo caminho?

 

Que pena! Era tão moderno este ideal. Porque será que deixou somente sentimentos antigos, dores e perdas como sentíamos talvez há 100, 500, 1000, 2000, 5000, talvez 100.000 anos atrás? Só modernizamos a agilidade e a quantidade da destruição. Destruir, matar ... não parece coisa bem arcaica?

 

Recordo, então, que em todos os tempos tivemos grandes pensadores, filósofos que deixaram seus pareceres para a posteridade. São referenciados, estudados, quase idolatrados por suas posições.

 

Onde estão os nossos pensadores de hoje? Estão somente estudando os de “ontem” ou alguém levantará sua voz para questionar ainda nesta era, para onde caminhamos?

 

“Caminhamos para a guerra coletiva e para a pior, a individual. Abandonamos nossos filhos em busca de uma vida melhor para eles.  Para eles?” Quem está educando estes nossos filhos? Não importa. São outras épocas, modernas...

 

Como será que se economiza mais, investindo na educação ou construindo novos presídios? Como será que a nossa criança se sentiria melhor, na escola ou na cadeia? Qual seria hoje a opção desta criança moderna, abandonada na rua ou em seu próprio lar, convivendo direta ou indiretamente com  a violência? O que esperamos colher desta criança no futuro? Flores?

 

Estamos ensinando esta criança, desde pequenininha, que ela tem que vencer sempre. Não importa como faça, contanto que vença. O “vencedor” pode corromper e ser corrompido com a maior naturalidade, contanto que seja muito. Caso  contrário,  PAGA.

 

Mostramos a ela em horário nobre que o DOUTOR fraudou, mas tem “imunidade”. Então pode. Nenhuma palavra soará mais linda aos seus ouvidos do que a tão famosa “imunidade”.

 

Ensinamos, também, em horário nobre, que se o papai é um “vencedor”,  pode-se queimar, atropelar, matar, assediar, boicotar, fraudar..., que nada acontece. Só não se atreva em fazer se o papai for um “perdedor”,  Então  PAGA.

 

O “vencedor” é sempre aquele que possui, jamais aquele que sente e ama.

 

Respeitar o idoso, ouvir seus conselhos? Antigo, brega. Moderno é chuta-los e abandona-los. Como será o relacionamento de respeito desta criança quando adulta?

 

O  mundo do permissível mudou, os valores mudam a cada dia, as atrocidades acontecem a céu aberto. Nós nos calamos, temos medo da represália e com isto endossamos estes comportamentos.

 

As máquinas cada vez mais substituem os homens, os desempregos se somam, a população aumenta, as perspectivas diminuem, a criminalidade prolifera. Cria-se em cada esquina uma nova escola do crime. Assistimos a tudo passivamente, afinal são problemas modernos.

 

O marginal (talvez a criança citada), comanda o jogo e seus adeptos aumentam. Provando que também possuem a tão famosa imunidade, basta ser “forte”. São os novos ídolos da  “nossa criança”, ídolos de sangue.

 

Ouço um PSIU! e uma sonora gargalhada. Alguém na minha “inexistente” platéia grita bem alto: SILÊNCIO! VOCÊ ESTÁ ULTRAPASSADA.

 

Calo a voz, fecho a cortina, escureço o meu palco, choro a minha desistência e sinto-me uma verdadeira covarde.

 
 
 
  CONSULTE NOSSA AGENDA DE EVENTOS  

Fale Conosco