QUEM NÃO
USA MÁSCARA?
por Sílvia
Rodrigues
Não se pode dizer ao
certo a origem das máscaras, mas sabe-se que elas têm uma longa
história. Foram usadas como símbolo de comunicação ou de
disfarce; serviram para proteger o rosto de guerreiros em
combate e como enfeites religiosos.
Já representaram o bem
e o mal, divindades, espíritos e deuses. Até mesmo já foram
artigos de luxo nos salões europeus e consideradas como jóias
preciosas. Já foram de ouro, aço, pano, papel e até de couro de
animais.
Permitiam aos atores de teatro a apresentação de
vários personagens em um único espetáculo. Aliás, a própria
palavra “pessoa” vem de “persona” que era o nome da máscara que
os atores do teatro romano usavam. Sua função era tanto dar ao
ator a aparência que o papel exigia, quando ampliar sua voz
permitindo que fosse bem ouvida pelos espectadores.
Por extensão, designa um papel
social, ou a máscara ou aparência que uma pessoa apresenta ao
mundo.
E, é no carnaval que
ela encontra seu auge, pois durante os dias de folia as pessoas
se permitem, ao usá-las, vivenciar algumas fantasias e
representar papéis diferentes dos seus no dia-a-dia.
Mas, será que é só no
carnaval que se usa máscaras?
Quem não usa máscara
no dia-a-dia?
Quem nunca se pegou
agindo de modo disfarçado? Lembra-se daquela vez que você disse
que foi “um prazer” conhecer ou encontrar determinada pessoa e
na verdade foi tudo um grande desprazer? E, durante uma
entrevista de emprego onde você extremamente nervoso, tenta
aparentar calma e controle da situação?
Pois é, todos nós
usamos máscaras de vez em quando e podemos dizer que, até certo
ponto, usá-las torna nossa convivência mais tranqüila, nos
proporciona ganhos, evita situações desagradáveis e em muitas
ocasiões, tornam-se até necessárias à nossa sobrevivência
social.
Entretanto, precisamos
ficar atentos, pois, muitas vezes exageramos na dose. Insistimos
em usá-las indiscriminadamente em nome da manutenção da paz,
harmonia e felicidade, só que dos OUTROS.
Vivemos num mundo que
insiste em nos padronizar, nos modelar e quando nos damos conta,
estamos infelizes, pois passamos a priorizar o que os outros
esperam de nós e nos esquecemos de nós mesmos.
Levantamos de manhã,
colocamos nosso falso figurino, incorporamos nossas máscaras e
seus respectivos papéis e assim vamos para o nosso cotidiano
tentando nos adequar a um modelo pré-estabelecido e fazer parte
da maioria.
E, assim vamos vida
afora, colocando nossas máscaras: A da felicidade e sorrisos
quando na verdade queremos chorar, não nos dando a oportunidade
de tomar consciência dos próprios sentimentos.
A de empresários (as)
de sucesso, mesmo que por dentro estejamos nos sentindo vazios.
A da saúde perfeita,
mesmo estando doentes físicas ou emocionalmente, impedindo-nos
de buscar ajuda com algum profissional.
Ou a de doentes agindo
como mendigos afetivos pedindo carinho e atenção.
A de mulheres
maravilhas tentando bravamente sermos excelentes em tudo o que
fazemos, não nos permitindo errar em hipótese alguma.
A de vítimas
permitindo abusos, ouvindo insultos e permanecendo mudos,
estáticos e infelizes.
Você percebe o quanto
são infinitas as nossas máscaras? A cada uma que usamos
assumimos comportamentos inerentes a ela, mas nem sempre
representam o nosso verdadeiro desejo.
Nos armamos como se
fossemos gladiadores modernos num grande batalha. Buscamos
desesperadamente o melhor posto dentro de uma empresa, fazer o
que a maioria faz, temendo sempre que logo ali na esquina da
vida, apareça alguém melhor capacitado e que ganhe de nós uma
disputa que talvez nem nos traria felicidade.
É obvio que buscar,
progredir, almejar, lutar pelo melhor é muito saudável e faz
parte da natureza humana, mas a que preço? Em que grau?
Acredito que os
extremos são sempre perigosos, buscar faz parte da vida sim, mas
viver apenas em função desta busca é um convite à depressão, à
ansiedade, à frustração e àquele sentimento de inadequação
constante que permeia nossas vidas quando não estamos agindo em
conformidade com nossos mais puros sentimentos.
Quando nos acomodamos
às nossas máscaras, deixamos de nos conhecer, atuamos como
personagens em tempo integral, apenas hóspedes do nosso próprio
corpo. E, corremos o risco de vivermos uma vida inteira sem
jamais descobrirmos nossos valores e competências.
Parece que nesta busca
insana em enquadrar-se nem nos questionamos mais se estamos
sendo autênticos e agindo de acordo com nossos desejos. Aliás,
quando nos perguntam quais são nossos verdadeiros desejos,
precisamos parar para pensar e até lançar mão de algum esforço
mental no sentido de localizá-los em nossos porões do
esquecimento.
Dentro da minha
vivência profissional encontro pessoas que me dizem que não
sabem exatamente porque se sentem infelizes ou depressivas,
alegam ter o que necessitam e que mesmo assim ainda se sentem
tristes. Relatam ainda que em muitos momentos almejam ferozmente
determinadas aquisições, sejam materiais ou não, e que quando as
conseguem entram em profunda frustração. Tal qual aqueles cães
que latem desesperadamente para as rodas dos carros, mas que,
quando os carros param não sabe o que fazer!
Entretanto, se a
sociedade insiste em nos enquadrar, a vida insiste em ser
autêntica e descortinar.
Com o tempo nossas
máscaras começam a desgastar-se, a desajustar-se do nosso eu e
inutilmente tentamos repará-la disfarçando as rachaduras.
Proponho então que, ao invés de investirmos energia tentando
“consertá-las”, que utilizemos esta mesma energia num processo
de autoconhecimento buscando cada vez mais a autenticidade do
nosso ser.
Dentre tantos desafios
que temos na vida, talvez seja este o maior de todos, o de
tirarmos nossas máscaras e sermos nós mesmos. |