LIBERDADE

 Donna Crystal

 

Me levanto bem cedo e dou cumprimento à rotina da minha vida usufruindo a liberdade da escravidão a que me sujeito.

Todo o período do meu dia livre não me pertence, mas àquele a quem me paga para sobreviver a minha qualidade de “ser” livre.

Posso me libertar? “Ah, sim” dirá o mundo, mas eu sei que não posso, pois devo continuar vendendo a minha liberdade em prol da minha sobrevivência, afinal junto comigo tenho mais pessoas que precisam se alimentar, vestir, estudar, etc, para também imaginarem que são livres.

Liberdade! Quanta mentira contida numa palavra cujo dicionário traduz tão lindamente “faculdade de agir de uma maneira ou de outra, ou de não agir/ Estado do que não é escravo ou do que não está preso/ Ausência de sujeição ou insubordinação/Faculdade de fazer e dizer aquilo que não se oponha às leis/Familiaridade”.

Quantas formas admiráveis de se dizer àquilo que todos gostariam, mas que ninguém pode usufruir.

A escravidão é imposta pelo próprio tempo em que se vive. Somos escravos das reações da natureza, das quatro paredes em que habitamos, do alimento que necessitamos, do sorriso e da voz de alguém, dos desejos e necessidades dos nossos corpos, mas principalmente somos escravos dos pensamentos que povoam nossas mentes.

As definições dadas à palavra liberdade são as que gostaríamos de viver sem jamais poder.

Ao nascer, somos “propriedades” dos nossos pais e só devemos fazer o que nos ensinam e permitem, posteriormente a guarda passa a ser dividida com os professores, depois entre cônjuges, em seguida dos filhos, noras, genros e netos.

Porém, no meio de tudo isto, estão os patrões e somos muitas vezes patrões de nós mesmos, resumindo, somos escravos do mundo e da nossa mente. O que podemos fazer para mudar esta situação? Nada, ninguém é livre neste mundo que conhecemos, liberdade é uma utopia, uma fantasia de alguém que ousou sonhar um dia.

Poderíamos inocentemente responder que os donos de escravos são homens livres, mas na verdade são escravos dos seus próprios escravos, mas movidos pela arrogância nem se apercebem disto.

O pior é que, se de repente ficássemos livres, não saberíamos o que fazer tamanho é o condicionamento das nossas mentes e a subserviência já está estabelecida em nosso âmago.

Novamente falando por mim, no meu anseio pela liberdade, onde quer que eu esteja quero sempre alguém comigo. Na minha fantasia isto seria liberdade?

Muitas vezes cresce em mim uma grande revolta por este servilismo generalizado e tenho vontade de soltar as minhas amarras, quebrar as paredes de vidro que me sufocam se me tocarem e viver uma outra realidade, aquela que transcende aos meus sentidos e que dá asas a minha imaginação.

Mas existe uma enorme pedra amarrada aos meus pés que insiste em me manter no chão quando a minha vontade é de voar livre pelo espaço que me cerca e que se expande.

Quero dar as mãos ao vento, viajar pelo universo e totalmente invisível, contar longas e belas histórias nos ouvidos de quem puder parar para me ouvir.

E como vento, posso secar as lágrimas de quem é escravo das saudades que dói na alma e que nada pode fazer a não ser chorar sozinho na solidão do seu quarto e bem baixinho para que ninguém possa ouvir.

 
 
 
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