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O INDIVÍDUO COMO SER
CONSCIENTE DE SI MESMO
Vânia M. M. Heidor
A cada alteração na estrutura social,
mudanças de mesmo nível são notadas no comportamento dos indivíduos. É óbvio
que o psíquico é afetado de maneira direta. O interessante é observar quando,
porque e como acontece tal fenômeno.
A sociedade moderna conseguiu atingir o
íntimo de cada um nós de modo contundente, trazendo inquietações, dúvidas e
insegurança. Na verdade, perdemos nossas referências, o que é normal em
momentos de transição para novos tempos. É a evolução humana seguindo seu
curso.
Porém, neste espaço aberto de discussão,
acredito ser de especial interesse pontuar dois conceitos: consciência e
liberdade. Questões como “qual é o grau de consciência que o indivíduo
alcançou ao longo de todo o processo histórico?” e “até que ponto o indivíduo
é livre para agir?” têm sido alvo de discussão no meio sociológico.
Muito se tem escrito a respeito destes temas, e podemos tomar algumas linhas
de pensamento como base para nossa reflexão.
Um dos autores preocupados com essa
temática é Norbert Elias. Em seu livro “Sociedade dos Indivíduos”, parte III,
ele trabalha com os conceitos “identidade-nós” e “identidade-eu”. Desde os
primórdios até a renascença, a identidade-nós imperou quase que absolutamente
no mundo dos homens. A consciência de grupo era consideravelmente mais
carregada de significado quando comparada à consciência individual. No
Renascimento, o conceito de “homem singular”, capaz de provar sua qualidade
especial, comparada às demais, toma lugar nos países mais desenvolvidos da
Europa do séc. XVII. Segundo o autor, Descartes foi o primeiro a ter a
percepção do “eu” no ato do PENSAR, isolado dos compromissos sociais de
fidelidade - “O pensador isolado percebeu-se – ou, mais exatamente, percebeu
seu pensamento, sua razão – como a única coisa real e indubitável”. É a teoria
do conhecimento – todo o indivíduo que tenta chegar ao conhecimento é um ser
isolado; o pensar é o voltar para dentro de si. A partir daí, a
consciência do “eu” adquire volume, num crescente, até nossos dias – tempos
modernos.
Obviamente, alcançamos um estágio de
consciência individual importante, dado o que nos revelam estruturas sociais
do passado – tribos, aldeias, Estados feudais. Porém, será que podemos afirmar
que somos livres no agir? Será que atingimos o grau de consciência que nos
permite falar de nós mesmos de maneira autêntica, real, no que concerne ao
nosso mais íntimo ser? Há quem diga que estamos mergulhados na massa modelada
pelo social, sem muitas chances de escape, a não ser em breves momentos de
questionamento, ou, em outras palavras, em exíguos instantes de “viagem” no
íntimo pensar, na insaciável busca do conhecimento. Dessa maneira, o indivíduo
não goza plenamente do direito de exercer seu papel de sujeito da ação.
Teoria, aliás, encontrada em Durkheim – “o sujeito é sujeitado pela
sociedade”. O grau de liberdade é determinado pelo grupo social ao qual o
indivíduo está inserido, mas, vale lembrar que o controle está sempre
presente, tanto de fora para dentro (socialmente), como internamente, através
dos mecanismos da psique (Superego).
O anseio pelo
autoconhecimento é a marca da sociedade moderna. E do autoconhecimento advem o
prazer de sermos nós mesmos, colocar a serviço da humanidade nossos singulares
talentos e, assim, atingir a harmonia entre o indivíduo e a sociedade.
Entretanto, acredito que muito há de se fazer, ainda. |