Individualismo não é egoísmo

 Vera Lúcia Vasallo

 

Não é fácil ouvir e assimilar docemente a palavra individualismo porque uma coisa é fato, sempre vamos confundi-la com egoísmo, isso é um vício que condenamos mesmo quando vive dentro de nós. Nunca é totalmente bom aceitar como verdade absoluta tudo o que aprendemos e ouvimos na infância. Podem acreditar – sempre vale a pena refletir a respeito daquilo que pensamos saber.

 

E claro que individualismo está relacionado à individualidade, ou seja, a capacidade de se reconhecer como unidade ainda que integrada a um contexto maior - família, o país, o planeta. Somos indivíduos com manias, vícios e peculiaridades próprias, uma parte única em um universo composto de pessoas diferentes que partilham interesses comuns. Por isso a fenomenologia nos define como fenômenos únicos – isso mesmo – cada ser humano é um fenômeno único.

 

Quando se admite ser individualista passamos a considerar legítimo cuidar dos próprios interesses, o que não significa, em hipótese alguma, prejudicar os direitos daqueles que o cercam. Todos devemos ter uma noção clara de nossos limites. Se não se tem essa consciência da fronteira que separa os direitos alheios dos nossos, não se consegue distinguir a nós mesmos do todo e então se perde a individualidade.

 

Vivemos numa sociedade que valoriza intensas trocas de sentimentos e idolatra as pessoas que se doam sem medida e incondicionalmente. Então, o individualista, que não se entusiasma em trocar, é visto com reservas. Acaba por ser visto como alguém que não espera muitos dos outros. Esse comportamento não é egoísta embora as pessoas cujas expectativas ele deixa de atender o vejam dessa forma.

 

Bom seria se pudéssemos entender assim - egoístas são os que defendem profundas trocas de experiências entre as pessoas para tirar vantagens, já que exigem muito e dão pouco. Como não sobrevivem sem isso, acusam de egoísmo quem não aceita as regras desse jogo de se doar muito e receber pouco. O alvo em geral são os individualistas, que não se prestam a esse tipo de manobra.

 

Aos egoístas não resta outra saída a não ser se aproveitar dos generosos – aqueles que se importam em receber muito menos do que seu empenho em se doar mereceria.

 

Você sabe que encontrou pela frente um egoísta quando ele diz “eu me amo” e gosta de apregoar que consegue suprir as próprias necessidades de ficar bem consigo mesmo. Na verdade o objetivo desse discurso é esconder a vergonha que sente de sua total dependência – de atenções, proteção, de companhia. Fato seria que se fosse independente de fato, não precisaria tirar vantagens dos relacionamentos.

 

Na verdade, quero crer que todo egoísta gostaria de ser individualista, de ter força suficiente para bastar a si mesmo, de agüentar com dignidade as dores inerentes à vida, de poder escolher entre trocar ou não experiências. O individualista possui esta força, ao passo que o egoísta o imita exibindo uma energia que não possui.

 

È bom prestar atenção - o egoísta se apropria daquilo que não lhe pertence: precisa guardar uma cota extra para suprir sua incompetência em lidar com a vida. Faz isso não porque é mau-caráter, mas porque é um fraco. Ele sabe muito bem de suas limitações emocionais e padece de inveja dos que são verdadeiramente independentes. Tenta incorporar suas atitudes e até convence muita gente de sua independência. O grande problema é que não engana a si mesmo.

 

Questão de reconhecimento fácil quando se está diante de um individualista, ele consegue estar atento ao outro, porque sabe o que é estar atento a si mesmo. Por isso quando se coloca pronto a ajudar, faz porque gosta de si e do outro, não para que o outro goste dele.

 
 
 
 

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