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HIPNOSE
Por Paulo
Madjarof Filho
A
hipnose tem sido exaustivamente estudada sob os aspectos
psicológicos quanto a sua natureza, e aspectos clínicos quanto a
sua aplicação, porém, pouco sobre os aspectos experimentais e
menos ainda sobre os neurofisiológicos. Pode ser definida como
condição temporária de um estado físico-mental, resultado de uma
modificação do sistema nervoso e o aumento da capacidade de
concentração. Para Shrout, vivemos o estado hipnótico pelo menos
duas vezes ao dia: quando vamos dormir e quando acordamos.
Trata-se de um estado intermediário, similar ao estado de transe
hipnótico, onde não estamos acordados e tampouco dormindo.
Segundo Zeig, Milton Erickson usava com freqüência uma expressão
que lhe era cara: o transe do dia-a-dia, o transe
cotidiano, referindo-se as atividades de dedicação
exclusiva. O estado hipnótico é visto por Guyonnaud como a
tradução das infinitas possibilidades que a mente humana dispõe
para as mudanças desejadas, de acordo com os recursos de cada
sujeito. Afirmou Erickson sobre o estado de transe, que o mesmo
não se refere unicamente a um estado de sonolência induzida. Os
pacientes não são dirigidos ou submetidos pela vontade do
terapeuta e nem perdem o controle sobre os seus atos. Para
Erickson, o transe é um estado natural que todos nós
experimentamos, incluindo nessa categoria, os estados de
meditação, oração e até quando praticamos algum exercício
físico.
A
hipnose foi durante muito tempo, cercada de uma aura de
misticismo, de ocultismo e esoterismo, que mascarou por muitos
séculos, todas as possibilidades e todas as suas qualidades
positivas. Desde a fase do exorcismo – onde era vista como um
fenômeno demoníaco – até a fase do magnetismo animal de Mesmer,
sob o nome de mesmerismo, passou a ser vista como um fenômeno
natural, ainda que houvesse uma relutância da ciência formal em
acatá-la como técnica investigativa e terapêutica.
Em
dezembro de 2000, o Conselho Federal de Psicologia através da
Resolução 013/00, reconheceu a hipnose como instrumento do
profissional de psicologia, recomendando o seu uso (CFP, 2001).
Em 1999, atendendo a um pedido da Sociedade de Hipnose Médica de
São Paulo, o Conselho Federal de Medicina acata o termo
hipniatria, como referência do uso da hipnose na medicina.
Passa, desde então, a ser recomendada como prática médica
auxiliar no diagnóstico e na terapêutica, rigorosamente dentro
de critérios éticos (CFM, 2001). O Conselho Federal de
Odontologia, no artigo 4o de seu código profissional,
recomenda o emprego da hipnose, ao que chama de hipnodontia,
desde que o profissional esteja comprovadamente habilitado (CFO,
2001). Outros profissionais da área de saúde, representados
pelos seus respectivos conselhos de classe, reivindicam o seu
uso por reconhecerem o seu potencial terapêutico. Do ponto de
vista legal, o Decreto nº 51.009/61, proibia espetáculos ou
números isolados de hipnotismo e letargia, de qualquer tipo ou
forma, em clubes, auditórios, palcos ou estações de rádio ou de
televisão, o qual, lamentavelmente, foi revogado pelo Decreto n°
11 de 18 de janeiro de 1991, do então Presidente Fernando
Collor.
Charcot
fez contribuições à hipnose, embora, segundo alguns autores, de
maneira incorreta. A Escola de Salpetrière, com Charcot,
associava o fenômeno da sugestão a uma manifestação patológica,
já que indistingüia a histeria, a hipnose e a sugestão. Via no
hipnotismo um caminho aberto à experimentação. Segundo ele, o
estado hipnótico não é senão um estado nervoso artificial ou
experimental, cujas manifestações múltiplas aparecem ou se
desvanecem segundo as necessidades do estudo, à vontade do
observador. Ao contrário, a Escola de Nancy com Bernheim e
Liébeault, sustentava que era um fenômeno psicológico normal. As
teorias de Charcot não resistiram às críticas de seus opositores
e nem ao próprio tempo. Verificou-se que a hipnose nada tem a
ver com um estado patológico e que as fases do transe
classificadas por ele – catalepsia, letargia e sonambulismo– são
estados possíveis, porém não obrigatórios no fenômeno da
hipnose.
A
Programação Neurolingüística, que muito se baseou na observação
e nos estudos e práticas de Milton Erickson, enfatizou os seus
métodos propondo uma compreensão do modelo analógico do
funcionamento mental. Segundo Erickson, a capacidade de
responder em hipnose, significa a manifestação e o
desenvolvimento mais adequado à habilidade de ouvir, receber e
responder a várias idéias e pensamentos. Idéias são imagens e
têm sua representação mental sob a forma de pensamentos e
sentimentos, e, sob esta perspectiva, Erickson utilizou
largamente estórias e metáforas, moldando-as plasticamente às
necessidades do indivíduo. As interpretações das comunicações de
Erickson sob o enfoque da neurolingüística, apontam a sua
tendência para marcar
as sugestões que eram intercaladas em um relato.
Moraes
Passos, nome de destaque nos estudos sobre a hipnose no Brasil,
destaca o caráter dinâmico da hipnose moderna em contraposição a
uma visão tradicional e equivocada de seu caráter passivo,
centralizado na figura do terapeuta. Refere-se à hipnose como
uma experiência individual orientada para os objetivos
individuais do sujeito, e da possível dependência das reações
habituais decorrentes de uma relação interpessoal íntima, que em
parte, segundo Passos, envolve o papel que o hipnotista
representa, assim como pela significação simbólica da
experiência hipnótica no momento particular da indução do
transe. Afirma Passos, que a origem arcaica da hipnose pode ser
encontrada no primeiro anjo da guarda que nos embala,
protege e zela por nós – a figura materna.
As
teorias sobre hipnose de forma geral se mostram parciais. A
teoria pavloviana foi instituída a partir da experiência sobre o
animal, afirmando que a hipnose é um estado intermediário entre
a vigília e o sono, uma inibição parcial, tanto no ponto de
vista topográfico, quanto no ponto de vista intensidade,
permanecendo no córtex pontos vigilantes que permitem no homem,
a relação entre o hipnotizador e hipnotizado. Entretanto, a
escola pavloviana não considera a camada inconsciente na
história afetiva do indivíduo. Além disso, a comunicação
intersubjetiva não se faz unicamente no plano verbal.
Freud,
que não se considerava um grande adepto da arte de hipnotizar,
abandona a hipnose em favor da livre associação. Menciona que
desde o princípio utilizou a hipnose de outra maneira,
referindo-se ao método de Breuer, que usava o hipnotismo para
determinar a origem do sintoma. Declarou Freud, sobre o
abandono da hipnose:

Com a
poderosa penetração da psicanálise, principalmente no mundo
ocidental, o hipnotismo foi relegado a um plano secundário. A
hipnose, considerada inadequada e até inútil e maléfica, por
muitos autores, teria sido praticamente esquecida se não fossem
as obras de cientistas de peso, como Pavlov (1849-1936), Schultz
(1884-1970) e Erickson (1902-1980).
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