|
GOTA
D’ÁGUA
por Donna Crystal
Sou uma gota d’água, não sei se nasci ou se começo a lembrar da
minha existência quando ainda estava nas entranhas da terra, num
imenso lago de águas cuja temperatura era tão alta que nem sei
dizer a quantos graus atingia nos mementos das alterações
promovidas pela pressão interna.
Não tinha a menor lembrança de que algum dia eu havia saído
daquele lugar, pois já estava tão acostumada com as oscilações
da nossa temperatura que tudo era muito natural e me sentia
totalmente em segurança, protegida pelas grossas paredes que a
mãe terra preparou para nos envolver.
Via constantemente as minhas irmãzinhas se prepararem e sair
para a aventura externa, mas isso não me empolgava, ao contrário
eu as achava loucas em se aventurarem assim por lugares tão
desconhecidos e talvez até mesmo hostis.
Porém, ao voltarem algumas dezenas, centenas e até em milhares
de anos depois, chegavam cheias de histórias, umas escabrosas,
outras chocantes, mas tinham também algumas tão lindas e cheias
de carinho e amor que começaram a despertar a minha curiosidade.
A primeira vez que pensei na possibilidade de largar o útero
materno fiquei perdida entre a curiosidade e o medo, pois nunca
me achei nem um pouquinho possuidora do espírito aventureiro que
era inerente às minhas irmãs.
Mas, com o tempo fui ficando curiosa e a minha curiosidade foi
crescendo, fui criando expectativas que se transformaram em
desejo e este em determinação. Não que isto tenha sido fácil e
eu me decidi num impulso. Foi muito bem pensado e analisado, só
após concluir que errando ou acertando eu teria sempre o meu
caminho de volta e seria naturalmente bem recebida é que me
decidi.
Não tracei nenhum percurso, apenas me coloquei em uma das filas
aguardando a minha vez de entrar em um dos poucos caminhos que
me conduziria juntamente com as outras, ao buraco de saída que
fora feito exclusivamente para este fim.
O caminho era um enorme labirinto e a velocidade em que nos
locomovíamos era tanta que me assustei. Primeiro tentei voltar,
só então percebi que este caminho uma vez iniciado não tinha
volta. Mesmo porque, eu fazia parte de uma turminha muito
esperta, divertida, ansiosíssima para completar o percurso e
ganhar liberdade ao chegar à superfície.
A minha curiosidade crescia na proporção em que subíamos e
tentei fazer algumas perguntas, mas elas disseram que já estavam
cheias delas e que eu já era crescidinha o bastante para ver e
entender sozinha os próximos acontecimentos.
Desisti de pensar por algum tempo, mesmo porque não saberia no
que pensar uma vez que o meu mundo sempre esteve limitado entre
as quatro grossas paredes em que vivia, portanto, eu nada
conhecia além disto. Observei apenas que a medida em que
subíamos íamos esfriando até ficarmos bem geladinhas.
Apesar do impulso oferecido pela enorme quantidade de gotas
loucas para saírem e dar lugar às que queriam entrar, o caminho
foi longo e demorado, eu tentei colaborar no que pude para
apressar a nossa caminhada, mas depois exausta, deixei que
apenas me levassem, mesmo porque eu não fazia peso e não
atrapalharia.
Não sei determinar quantos dias durou esta viagem, pois depois
de algum tempo acabei perdendo a noção, só posso garantir que
foi muito tempo.
De repente fomos ficando mais lentas e novamente entramos numa
enorme fila e todos os organizadores foram pedindo que nos
acalmássemos, pois não poderíamos chegar tão afoitas do
contrário provocaríamos grandes desastres que poderiam culminar
em tragédias e que não era este o objetivo daquela fila.
Finalmente chegamos na superfície e começamos a sair. Notei que
o caminho fora se estreitando vertiginosamente até que ao
sairmos, a passagem era por um buraquinho muito estreito que
ficava protegido por uma enorme quantidade de pedras e nós
preguiçosamente deslizávamos entre elas.
As nossas irmãs que haviam nos precedido já tinham tomado o
cuidado de preparar estas pedras, de forma que para nós foi só
aproveitar do conforto que elas nos proporcionavam após a longa
viagem.
De imediato eu não entendi absolutamente nada, tudo era muito
estranho, o lugar era completamente aberto, não havia paredes
para nos proteger e cheio de coisas que eu ainda nem sabia que
existiam. Fora a claridade que de imediato me cegou e achei que
não veria mais nada. Bem, pior era ver sem saber o que via.
Fui rolando pedras a baixo não sei se descansando ou querendo
saber para onde esta aventura estaria me conduzindo. De repente,
senti algo muito diferente tocar em mim e por não saber da sua
existência e importância neste novo mundo, achei-o atrevido e
insistente. Uma das gotas que estava mais próxima e que já tinha
feito a viagem outras vezes me esclareceu a situação.
Soube então que era o vento e que este não era nem amigo ou
inimigo, apenas como nós estava ali fazendo o seu trabalho, que
eu apenas tomasse cuidado porque independente da vontade dele, a
sua ação contínua poderia me desintegrar e depois daria muito
trabalho para me juntar de novo.
Eu fiquei pensando se isto não é um inimigo, o que será que
encontrarei então pela frente que dará sentido a esta palavra?
Tive medo e me encolhi, jurei a mim mesma que não daria a ele o
prazer ou desprazer de me atacar, pelo menos não nos meus
primeiros dias de superfície.
Bem, as coisas não eram tão simples ou fácies como me pareceu no
início, mas agora eu já estava fora e não ia ficar choramingando
feito bebezinho, muito embora eu nem sabia, mas era a própria
“bebezinha” inexperiente e inocente em relação a tudo.
Enquanto tudo isto se passava comigo, nós continuávamos a
deslizar sob, entre e sobre as pedras, continuamente e sem
pressa. Algumas das nossas tinham ficado pelo caminho,
preferindo molhar algumas plantas, outras foram projetadas e
jogadas em pedras mais distantes e seriam inevitavelmente
desintegradas pelo tal vento e em alguns milhares de anos
conseguiriam se juntar de novo e fazer o caminho de volta ou
seguir em frente.
Eu continuava me agüentando e compreendi que se me misturasse
com a maior quantidade possível de água ficando no meio delas e
não nas laterais, teria mais chance de passar desapercebida e
assim poderia com menos esforços e maior segurança alcançar
lugares mais altos e distantes.
Fui me acostumando com a nova paisagem e comecei até a gostar
dela embora continuasse sem saber muita coisa, aprendia apenas
com os pedaços de conversas que ouvia de uma ou de outra e
estava atarefada demais em me sustentar, olhar e seguir, para
conseguir articular o turbilhão de perguntas que a minha mente
ia produzindo.
Fizemos um longo percurso e na medida em que avançávamos e nos
distanciávamos do nosso mundo de origem, também as lembranças
deste iam enfraquecendo até que tudo se apagou e este aqui
passou a ser, também, o meu verdadeiro mundo.
Rolando dia a pós dia vislumbrei ao longe um lago enorme, cujas
águas estavam limpas e transparentes a ponto de enxergar o seu
fundo e para minha surpresa, vi que alguns seres o habitavam e
na medida em que me aproximava eu ficava mais excitada.
Mas de repente tudo se escureceu novamente e eu não entendi
nada, a minha passagem para o lago parecia tão iminente, mas
segundos depois toda aquela visão maravilhosa estava perdida e
eu me perguntava se seria para sempre e quando novamente a luz
apareceu, eu já fazia parte do lago.
Fiquei encantada, pois percebi que a junção de muitas gotas
d’água, entre elas eu, é que fazia a sustentação para que eles
se movimentassem e pela primeira vez na minha vida eu me senti
tão útil quanto importante. Alguém neste mundo precisava e
dependia de mim para viver.
Passei longos e felizes anos convivendo com os peixinhos e nossa
paz só era quebrada quando outros animais que passei a conhecer
vinham beber água ou se banhar. Como o lugar me era muito
aprazível eu me mantinha a uma boa distância de todos eles,
evitando assim que me engolissem e só me despejassem muito longe
dali.
Porém, o destino havia se encarregado de me afastar e num desses
dias em que eu havia matado a sede de um lindo e soberbo “peixão”,
este fora pescado e lá fui eu para o desconhecido.
Como o peixe tinha sido cortado em vários pedaços antes de ser
preparado, eu fiquei mais ou menos no pedaço do meio. Alguém que
tinha as mãos bastante firmes e sabia exatamente o que queria e
o que fazia, lavou várias vezes os pedaços, depois colocou
muitas coisas que os deixaram bem mais sujos do que estavam
antes.
Terminada a operação “sujeira”, ela colocou a ponta do dedo na
língua e fez expressão de que já tinha sujado o bastante e que
agora estava bom. Deixou-nos descansando por algum tempo, para
em seguida nos jogar numa panela.
O cozimento não durou muito e uma vez pronto fomos para a mesa.
Quando a travessa que nos conduzia foi colocada bem ao centro,
pude observar que algumas pessoas a rodeavam e que seus olhos
estavam ansiosos e suas bocas ávidas para nos devorar.
Ao me certificar que seria devorada, por fazer parte do peixe,
senti um certo desconforto, mas já sabia que nada evitaria esta
minha nova experiência e torci para cair na boca de alguém mais
sensível, evitando assim que me triturassem o bastante para me
desintegrar.
Felizmente um menino com uma carinha bem branquinha e toda
sardenta olhou pra mim e senti que seria engolida por ele. Não
me enganei, entre o espetar do garfo e a mordida foram apenas
frações de segundos, duas ou três mordidas depois e eu já
viajava por sua garganta, esôfago, estômago e rumo ao intestino.
Agüentei tudo heroicamente, pois havia aprendido que, já que
preciso passar por estas situações, melhor fazer sem reclamar e
lá fui eu. Após passar por aqui, viajar por ali cheguei ao
inevitável e me agüentei firme até conseguir ver a claridade do
sol novamente.
Por um tempo incalculável fui evitada por todos e quando já
estava me sentindo de todo imprestável caí misericordiosamente
num rio e este na medida que corria para o mar, foi me limpando
até que algum tempo depois eu já estava me sentindo “água”
novamente.
A experiência só não foi traumática porque houve o benefício da
cura, isto é, eu pude voltar a ser limpinha de novo e seguir
viagem. Passamos por lindos campos floridos, mas eu apesar de me
manter afastada de todos os peixes do rio, não tinha me
entusiasmado muito em ficar pelo caminho e continuei
tranqüilamente.
Porém num belo dia de sol, eu me achava muito preguiçosamente
largada a deslizar morro abaixo, quando fui seduzida pela bela
paisagem de uma plantação de algodão e resolvi ficar.
Fui direcionada para um tanque imenso, depois jogada ao solo,
tragada e absorvida pelas raízes de um algodoeiro e o caminho
até a flor foi uma festa. Novamente me senti importante e ao me
sentir importante sou naturalmente feliz.
Habitei nesta flor, primeiramente fechada por uma casca e depois
aberta para o sol, o vento e a mercê do tempo. Tudo era novo e
vibrante e o não saber qual seria o próximo passo me deixava
ainda mais excitada.
Finalmente as flores foram colhidas por mãos carinhosas que as
colocaram num saco, foram devidamente separadas e limpas, depois
encaminhadas para um lugar de onde o algodão deveria sair seco e
fui novamente afastada.
Estive por outros longos anos em companhias diferentes,
experimentei ser absorvida por muitas outras raízes até que um
dia resolvi mudar, desta vez eu queria ficar mais próxima das
pessoas da casa, portanto, observei um vazo que tinha lindas
flores azuis e na primeira oportunidade me acomodei entre elas,
como previra fui colocada na sala sobre uma mezinha de vidro
transparente.
Legal, virei atração, todos passavam, acariciavam e cheiravam as
flores e eu ali achando que era flor também. Mas o tempo foi
passando e as flores foram murchando, então sofri todas as
conseqüências do envelhecimento delas. Até tentei prolongar um
pouco mais a sua existência, porém nada adiantou e elas
sucumbiram.
Num destes dias de faxina fomos parar na lata do lixo e a minha
caminhada recomeçou. Fui atraída para umas árvores de folhas
pequenas e cheirosas, mas o sol bateu tão forte que logo fui
transportada para outros lugares.
Acumulei-me em poças e fui varrida, caí em latas enferrujadas e
fui chutada, jogada em esgotos e finalmente voltei ao rio. Matei
a sede de muitas pessoas, animais, pássaros, feras e até
répteis, já não escolhia queria apenas e tão somente me sentir
útil.
Virei perfume, pomada, remédio, material de limpeza e até
veneno, mas não me cansava, precisava conhecer tudo, quanto mais
conhecimento mais histórias eu teria para compartilhar com
minhas irmãs e amigas.
Num dia eu estava sendo cheirada e cuidada com todo o carinho,
no outro eu limpava o chão onde se pisa, e logo depois jogada
nas ruas para diminuir a poeira. Lavei chiqueiros, latrinas,
lindas banheiras, talheres de lata a ouro, taças de vidro e
cristal, corpos saudáveis, doentes e mortos, pessoas boas e más,
nunca escolhia trabalho, fazia de tudo que aparecia e assim fui
amadurecendo e me tornei uma gota adulta.
Um belo dia, após ter sido colocada em uma bacia e usada para
lavar muitas roupas fui jogada num jardim de hortênsias, rosas e
margaridas, estava me sentindo tão linda quanto às flores,
quando num descuido por pura vaidade, fui pega pelo vento, virei
vapor e quando menos percebi fazia parte de uma nuvem.
Ah! Isto era a supremacia absoluta, eu uma simples gotinha
d’água, que havia percorrido o mundo despretensiosamente, era
agora todo glamour passeando nas alturas e tendo toda a visão da
terra. Era o máximo, o estrelato absoluto a glória da glória, e
ao pensar que eu havia considerado o vento meu inimigo e fugido
dele por tanto tempo, me deu um pouquinho de vergonha, agora eu
era totalmente grata a ele.
Viajei ao redor da terra algumas vezes e me sentia absoluta em
minha grandeza, porém um dia a minha nuvem foi chamada a unir-se
às outras e todas juntas foram condensadas e sopradas até
encontrar uma onda de calor intenso e nos transformar em chuva,
caindo nos campos e chegando ao grande rio.
Novamente eu estava navegando, até que um dia fui desviada para
uma fonte onde as pessoas pegavam água em suas vasilhas e
abasteciam os lares. Fui pega num destes dias em que a atmosfera
está carregada de tensão e nós gotinhas não sabemos o por quê.
Fui carregada sobre a cabeça de uma mulher e entregue à porta de
uma casa.
Jogada num tanque esperei para ser utilizada para o que fosse
mais necessário e urgente. Pegaram-me com uma caneca simples e
me despejaram numa jarra de cristal, fui colocada sobre uma
bandeja forrada com toalha de linho branca e levada para um
quarto onde algo muito importante acontecia.
Neste lugar aconteceu a maior emoção da minha vida, fui
utilizada para banhar o corpinho de um bebê recém nascido e nada
se compara com a felicidade de estar presente quando se nasce
uma criança. Depois participei de muitos outros nascimentos e a
cada nova criancinha que eu banhava minhas energias se renovavam
e pouco me importava onde eu seria jogada após ter sido tão bem
utilizada.
Depois disto, fiz ainda muitas outras coisas, entre elas, matei
a sede de Salomão, banhei Cleópatra, lavei as mãos de Pilatos e
de imediato me senti horrível, mas depois analisei que o ato não
fora meu, eu apenas estava no lugar errado e na hora errada, mas
como sempre atendendo às necessidades de alguém.
Mesmo tendo consciência da minha inocência, fiquei alguns dias
sufocada, parecia estar em estado de letargia, não queria pensar
nem agir, muito menos interagir. Novamente fui pega pelo vento e
levada às nuvens, mas desta vez não me senti gloriosa, já sabia
que tudo isto fazia parte da rotina de uma gota d’água.
Agora sou uma gota adulta que já vivenciou os mais diversos
acontecimentos, não me sinto cansada, infeliz ou decepcionada,
sei apenas que a qualquer momento serei chamada a cumprir novas
tarefas e a rotina recomeçará. Gostaria apenas de saber o por
quê de tantos vais e vens, qual o objetivo disto tudo e
exatamente para que eu fui criada.
Serei igual a esta gente que não se lembra mais de onde veio,
caminha por todos os lados sem uma direção definida e sem
saberem para onde vão ou aonde querem chegar? Sou igualmente
perdida sem ter o conhecimento de quem sou?
Uma vez criada, serei eternamente recondicionada e reutilizada
com objetivos desconhecidos ou um dia serei simplesmente
eliminada e nada restará para ser lembrado?
Devo, como gota d’água, concluir que o mais importante é
esquecer o passado, não programar o futuro e viver apenas e tão
somente o meu momento presente, sendo útil e fazendo felizes as
pessoas que cruzarem os meus caminhos, talvez, por toda a
eternidade?
Compromissos assumidos, deveres a serem cumpridos, uniões a
serem feitas e desfeitas, atitudes tomadas ou a tomar, tudo faz
parte de uma rotina que não se altera e não se soma, apenas
acontece.
Penso seriamente em mudar o meu destino e conseqüentemente mudar
o meu mundo, mas desconheço outras formas de agir e a falta de
conhecimento impõe limitações.
Almejo alcançar mundos diferentes, os caminhos não se
apresentam, eu os procuro incessantemente, mas não os encontro e
se os encontrasse talvez não os percebesse, pois não fazem parte
do meu arquivo de registros.
Existe apenas uma forma de sair deste lugar comum, é entrar na
fila e procurar o buraco da saída, viajar sem destino e cair num
mundo qualquer, me acostumar com a nova paisagem e integrar-me a
ela, buscando uma nova compreensão até que um dia com muita
sorte eu consiga descobrir as razões dos meus “porquês”.
Por enquanto, sei apenas que sou uma gota d’água e sendo
importante algumas vezes, dispensável em outras e o que me
alivia é pensar que não pertenço a ninguém e que ninguém me
pertence. Sou responsável apenas por mim mesma, pelos meus atos
e posso fazer de mim o que quiser.
Mentira! Pertenço a mais gente do que suponho, vivo me
explicando muito mais vezes do que seria necessário, devo
satisfações a muito mais pessoas do que gostaria.
Todos os meus passos são questionados, minhas horas e minutos
contados, monitorados e também faço isto com quem me cerca.
Muitas vezes nem tenho vontade de saber onde estavam, mas se não
o fizer dará a impressão de descaso e abandono e são duas coisas
muito tristes de suportar.
Sem perceber, colocamos as rédeas das nossas vidas em mãos
estranhas e as ligamos a nós para “quase” sempre ou no mínimo
por um tempo longo demais. Posso, no entanto, ser carente o
bastante para depender de tudo isto muito mais do que imagino e
nos meus momentos de fuga, ser considerada apenas uma
transgressora perigosa.
Talvez o “cale-se, você é apenas uma gota d’água e não se
atreva”, já tenha sido pronunciado, a minha sentença proferida e
eu jamais encontrarei outra saída. Entre bocas, corpos, nuvens,
campos, rios, mares e centro da terra, fugindo do vento ou a ele
me entregando, continuo a minha rota desconhecida e infindável,
sendo exatamente como esta sociedade composta por pessoas que se
acham livres apesar de serem escravas.
As emoções se alteram, mas ao longo e com a rotina diminuem de
intensidade e se algo novo se apresenta mexendo com elas, devo
exercitá-las o máximo possível, pois dependerei das lembranças
destes momentos felizes, para suportar os revezes seguintes.
Gostaria de saber se sou feliz ou infeliz, mas para tanto,
precisaria que alguém já tivesse definido o sentido da palavra
“felicidade”, mas de qualquer forma sou uma gota d’água e em
algum lugar alguém espera por mim.
Ao chegar posso ser recebida como sinônimo de F E L I C I D A D
E?
Viu? Acho que ninguém quer ser tão independente assim, animais,
insetos, pessoas e até nós gotinhas d’água estamos quase sempre
carentes, precisando e procurando pelo aconchego de alguém que
nos queira de verdade. Afinal, a energia é nossa e
compartilhá-la faz parte da nossa realidade e esta é acessível e
inquestionável. |