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ESTADOS ALTERADOS DE
CONSCIÊNCIA (EAC)
Paulo Madjarof Filho
Os Estados Alterados de Consciência (EAC) são estados de consciência que
diferem significativamente dos estados de consciência normal (vigília), porém
não se resume exclusivamente ao estado verificável do cérebro que constitui um
EAC. O estado do cérebro é uma questão objetiva mas não deve se restringir às
respostas do EEG ou de MRI. Caso contrário, catalogaríamos aos EAC os estados
do tipo como quando o indivíduo está espirrando, tossindo, pensando na cor
vermelha, etc. As leituras do cérebro revelam atividade ou inatividade
cerebral, mas essa não é uma boa medida para identificar os EAC. Por exemplo,
foram identificadas ondas Alfa em um EAC, onde normalmente se mede
também a falta do processo visual e de enfoque, entretanto às vezes este
estado é reconhecido em alguns atletas e jogadores de vídeo-game como um
estado automático (piloto-automático).
O entendimento desse estado pode ser melhor definido pela presença de duas
características subjetivas importantes: a sensação psicológica de deslocamento
do ego ao centro de percepção da pessoa e uma sensação que este ego é
identificado com o próprio corpo da pessoa. Os estados de consciência onde a
pessoa perde a sensação de identidade com o seu próprio corpo ou com as
percepções de si mesma podem, definitivamente, ser chamados de EAC. Estes
estados podem ser alcançados espontaneamente através de situações como um
trauma, um sono perturbado, a privação ou sobrecarga sensória, desequilíbrio
de neuroquímico, ataque epiléptico ou febre. Eles também podem ser induzidos
por comportamento social, como danças frenéticas ou entonações e cantos. Podem
ainda, ser induzidos por descargas eletricamente estimulantes no cérebro ou
ingerindo drogas psicotrópicas.
Muitos afirmam que o estado hipnótico é um EAC. Certamente se assemelha mas
não podemos convictamente afirmar que se trata de um EAC. Uma pessoa
hipnotizada pode responder no pós-transe sem a recordação (amnésia) de que
algumas palavras lhe foram mostradas. Depois, sem nenhuma memória consciente
de ter visto as palavras, dão evidência da memória implícita de tê-las visto.
Para alguns, é duvidoso considerar a amnésia como EAC.
Há poucas evidências que o EAC possa conduzir uma pessoa a um reino
transcendente e elevado de consciência, como afirmam parapsicólogos como
Charles Tart e Raymond Moody, mas há ampla evidência que algum EAC provocam
sentimentos extremamente agradáveis e podem afetar profundamente a
personalidade de um individuo. Por exemplo, algumas experiências religiosas
são descritas como uma sensação muito agradável da presença divina e o acesso
ao significado de todas as coisas. As drogas como LSD podem induzir
sentimentos semelhantes. Alguns pacientes que sofrem de epilepsia do lóbulo
temporal sentem a sua doença como um êxtase, com sentimentos de unidade com
Deus (Ramachandran 1998). Também, através de estímulos elétricos nos lóbulos
temporais, Michael Persinger pôde duplicar a sensação da presença divina, a
sensação de deixar o corpo (viagem astral) e outros sentimentos associados ao
misticismo (Persinger 1987). Dr. Olaf Blanke do Hospital Universitário de
Genebra, na Suíça, descobriu que através do estímulo elétrico do giro angular
os pacientes relatavam experiências de saídas do corpo. (Em um experimento
relacionado, o Dr. Stuart Meloy, anestesiologista e especialista da dor em
Winston-Salem, Carolina do Norte, estava testando uma descoberta lenitiva da
dor quando descobriu acidentalmente que estimulando eletricamente a coluna
espinhal de uma mulher ele a induzia a um orgasmo.)
Os estados cerebrais (epiléticos, LSD e estados eletricamente estimulados) são
responsáveis exclusivamente por eliciar sentimentos místicos de um encontro
com Deus? Talvez, entretanto não se podem descartar as ocorrências fora dessas
condições. Porém, é provável que os mecanismos que ativam estes sentimentos
são completamente naturais, podendo até ser um efeito colateral agradável de
alguma adaptação evolutiva, embora ainda não saibamos por que são ativados
tais estados no cérebro. E enquanto prevalece no campo científico essas
descobertas, extremamente interessante, de que as experiências religiosas
podem ser induzidas através da doença, dos elétrodos e por drogas, parece
apenas uma condição constrangedora acreditar em Deus. Embora também poderia
ser uma razão constrangedora tomar remédio, não buscar tratamento, usar um
estimulador eletromagnético do crânio e esperar pelos resultados de
Orgasmotron (de Woody Allen). A maioria das religiões orienta para um estado
ideal, (como o EAC), onde o indivíduo perde o contato com o seu corpo e o seu
próprio ego para se unir a algum tipo de divindade e sentir um prazer
extático.
(fonte: The Skeptic’s Dictionary) |