OS ELETRODOMÉSTICOS E EU

por Sílvia Rodrigues

 

Coincidência ou não, andei observando a movimentação da rotina de minha casa e a dos meus eletrodomésticos.

Por incrível que pareça, eles parecem assimilar a minha cara, o meu jeito e até os meus problemas.

Nestes momentos difíceis em que vivo, sinto que eles acompanham comigo o meu caos interior e do nada passam a quebrar, queimar, fundir e entrar em curto.

Venho notando a tamanha rebeldia destes meus objetos de amor e ódio e observando o quanto andam estressados e com uma teimosia de dar inveja a qualquer ditador.

Outro dia, minha máquina de lavar louças recusou-se terminantemente a jogar fora a água suja do reservatório, percebo que semelhante a mim, ela resiste bravamente em deixar ir embora tudo aquilo que lhe faz mal, que a contamina. Pura resistência!

A máquina de lavar roupas, aquela que nunca me deixou na mão, agora ousada, recusa-se a lavar as roupas sujas da casa. Não entendo...Aliás, entendo sim! Talvez esteja cansada de ver tanta “roupa suja” a ser lavada em minha vida e eu só protelando! Rebelando-se, obriga-me a pegar as roupas sujas de minha vida e lavá-las à mão mesmo, processo doloroso e demorado, mas que certamente aliviaria minha alma.

Nem o chuveiro escapou, explodiu e imediatamente esfriou impedindo-me de um longo banho quente. Logo agora que eu precisava deixar que minhas idéias de contravenção e desacato fossem ralo abaixo!

É realmente o fim! Precisava ficar um pouco mais no chuveiro para evitar explodir, mas ele, amigo fiel explodiu por mim!

Secar os cabelos ontem foi impossível! Meu secador entrou em “surto”. Recusava-se, assim com eu, a me deixar bonita, ou na melhor das hipóteses, deixar-me menos feia. Sentiu, através das minhas mãos, o quanto seria perigoso deixar-me sentir “bonita”. E, numa atitude de pura proteção paterna, pifou!

E o fogão? Nem me fale dele! Queimadores mais lentos do que nunca, soltando um foguinho tão forte quanto um assopro de criança. Que angústia! O feijão não cozinha, a batata não frita e eu preciso ir trabalhar.

Com tamanha lentidão parecem mostrar o quanto estou ansiosa e continuam indiferentes à tanta ansiedade lentamente no seu tempo.

Meu tempo se esgota assim como o gás. Desisto! Onde guardei o número do telefone do disk-marmitex?  Mas, eu entendo, meu fogão sempre soube que cozinhar nunca foi o meu forte e se recusa em silenciosa e lenta cumplicidade.

Meus eletrodomésticos parecem carregar a minha marca, o peso ou a leveza de minhas mãos. Comigo, parecem dividir meu dia. Trabalham, ajudam, somam, subtraem, mas também se rebelam, protelam e resistem a mudanças tal qual a minha postura diante da vida. Mas, afinal, porque estou tão preocupada com eles? São apenas objetos que me ajudam (ou não) a viver!

É, acho que ando muito filosófica ultimamente, ando até atribuindo-lhes sensações e sentimentos que são só meus! Pensando bem, acho que não é filosofia não, é solidão mesmo e das “brabas”!

Não importa, vou ouvir meu CD favorito, deixar de pensar neles e mandar esta tristeza embora!

IH! Não posso, meu aparelho de som também pifou!

 
 
 
 

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