A criança e a regra

 Dolores Rodriguez Barreiro*

“Se os professores aceitam os alunos como eles são, permitindo que expressem seus sentimentos sem condenação ou julgamentos, planejam atividades com eles e não para eles, criam uma atmosfera de sala de aula relativamente livre de tensões e pressões emocionais, as conseqüências que se seguem são diferentes daquelas observadas onde essas condições não existem. As conseqüências de acordo com as evidências atuais, parecem ser na direção de objetivos democráticos”.

                                                 Carl Ransom Rogers

 

Parece-me que a grande dificuldade é pensar com o outro. Temos por hábito pensar, decidir, responder e até mesmo agir pelo outro, ditando regra de comportamento que dificilmente seguimos, massificando as pessoas como se todas fossem iguais é uma questão a ser discutida, uma vez que o diferente sobressai  quase sempre de forma negativa.

 

A aceitação do novo gera certa resistência, que ao longo do tempo vai perdendo força e permitindo a sensação agradável de compartilhar sejam  sucessos ou fracassos temporários. Assim não foi surpresa para mim ao entrar em salas de aula a fim de ouvir o que os alunos colocariam como “combinados” (seus preceitos  e limites), constatar que repetiam mecanicamente aquela velha regra, imposta e acumulada ao longo de suas vidas (ainda tenras).

 

Tais normas, das quais a criança não faz parte para estabelecê-las, são verbalizadas mecanicamente,de cor e salteado e raramente seguidas, fossem elas ditadas pela escola, pais ou responsáveis. Permitir-lhes elaborar internamente esses combinados, debatidos entre eles e aceitos pela maioria, nada mais foi que o exercício pleno da criatividade e responsabilidade, onde pequenas mudanças puderam ser observadas imediatamente.

 

É um novo momento, ainda frágil, de a criança mudar sua visão de si mesma, escola, família e amigos, no que refere a relacionamentos e comportamentos adequados, assim sendo, cabe a nós adultos refletirmos sobre o tipo de crianças que gostaríamos de ver no futuro: a que se lhe é permitido refletir e pensar no seu tempo e ritmo,  diferenciando o bem do mal, capaz de dizer não ao que lhe possa ser prejudicial ou a que recebe um código de regras e comportamentos pré-estabelecidos, que pouco tem a ver com ela ou os quais não entende, e que ao confrontá-lo com a realidade, muitas vezes confusa, acaba trilhando caminhos não tão adequados?

 

Penso que as questões acima merecem a reflexão de nós enquanto educadores, pais, professores, coordenadores, direção de escola, profissionais da Saúde, enfim adultos em nossa relação com a Criança, independente da idade que tenha. Quando digo refletir é quase no sentido literal da palavra, não é possível  “mudar” os comportamentos infantis sem que mudemos os nossos!

 

* Dolores Rodriguez Barreiro

Psicologia Clínica e Educacional

Membro/Diretoria/Professora da AHIESP – Associação de Hipnose do Estado de São Paulo (Filiada à Associação Psiquiátrica de São Paulo

 
 
 
 

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