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CONTAMINAÇÃO
por
Donna Crystal
Paro agora, fecho os meus
olhos, faço contagem regressiva e relaxo por completo. Esqueço
toda a minha rotina, esqueço o trânsito lá fora que fazia um
barulho infernal em conseqüência da chuva.
Esqueço que vivi mais um dia
apenas para o trabalho, que faço o que gosto, mas não tudo que
gostaria de fazer e procuro deixar que os meus pensamentos
busquem as lembranças gostosas que se encontram no meu arquivo
de memórias vividas.
Liberto-me da contagem do
tempo e viajo livre e solta entre o ontem, hoje e o amanhã, numa
leveza indizível, não racionalizo, apenas vivo o momento
presente e tudo o que crio é a minha verdade agora. Daqui a
pouco, ou no máximo amanhã, tudo será fantasia transformada em
poesia, mas agora é a minha verdade.
Acabo de transformar em
realidade todos os meus sonhos e o impossível se torna possível
num simples pensamento. As distâncias se encurtam, os obstáculos
são removidos, os compromissos e as exigências acabaram, revejo
pessoas e me encontro com quem eu quero, do jeito que quero.
Compro palácios e recebo
apenas as pessoas a quem amo ou que quem eu amo ama, deixo um
caminho suavemente iluminado e enfeitado com as mais raras e
belas flores, tapete fofo e vermelho e a música tocada na harpa
com mãos de anjos, para o meu verdadeiro amor passar.
Encontro-me na praia e faço
um sarau para que todos se encontrem e danço descalça na areia
macia à luz do luar ao som dos atabaques, das flautas doces e do
farfalhar das folhas verdes dos coqueiros.
Quando já me sinto exausta,
me deito sozinha, imóvel entre as pedras e observo as estrelas
na espera que elas iluminem os meus olhos, mostrando a verdade
do início, meio e fim deste universo aparentemente calmo, sutil
e amoroso, mas que de repente pode inquietar-se e mostrar o
outro lado, aquele que nos faz tremer ante a fúria em que pode
mostrar-se.
Afasto-me da praia e alcanço
as montanhas, observo o horizonte a perder-se de vista e volto a
sonhar. Sonho ou realidade? O que importa, se tudo o que
vivencio faz parte de mim presente no agora?
Já não quero sentir os meus
pés no chão, então saio a voar e a fazer piruetas no ar. Sinto
vertigem e rio às gargalhadas, pois voltei a ser criança e posso
rir inocentemente de tudo o que faço.
Ainda voando, alcanço o navio
que navega solitário em alto mar, pego carona e subo ao palco,
represento a loucura vestida de branco fingindo inocência e
arranco aplausos. Afasto-me faceira, recolho os ramalhetes de
flores e parto sorrindo, sentindo-me livre como as ondas do mar.
Ah! Que sensação
indescritível. Rodopio e danço, aspiro o ar puro e adentro a
mata, um frio, um arrepio, um medo e uma imensa coragem tomam
conta de mim e saio à procura de todas as emoções que ela pode
me dar.
Feras, répteis, pássaros,
coelhos, macacos, lagartos, flores e frutas exóticas, mel das
abelhas, um córrego que corre suave em busca do rio que o levará
ao mar, e a mistura dos sons que me chegam das folhas, dos
gritos, dos cantos, dos uivos, como um lamento ou como uma
música a dizer que a vida acontece independente da minha
presença ou da minha influência.
E neste momento é algo tão
forte que se apodera de mim, que já não sei se sou gente, bicho,
água, fogo ou ar, sinto apenas que faço parte deste tudo, porém
não sei se somo ou subtraio, mas sinto que existo e isto ninguém
pode mudar. |