Fé e crença - carta a um amigo

Paulo Madjarof Filho

Amigo, boa noite!

A oportunidade de diálogo e reflexão me instiga e motiva a um desenvolvimento maior, afinal de contas, não é sempre que temos a possibilidade de trocar em tão alto nível – e aprender ainda mais. Estou lamentando não poder, como você, usufruir os recursos cibernéticos na rotina de minha clínica e manter um contato mais efetivo com respostas em tempo real(?).

Destaquei a crença do paciente por compreender e valorizar a crença como elemento crucial para a transformação desejada pelo indivíduo, independente no quê possa crer – desde que, é obvio, seja na direção positiva/reparadora/construtiva e no momento em que se manifesta. Pode ser no médico ou no medicamento (vide placebo), no padre, rabino ou pastor, na técnica ou no que se diz dela, na figa ou no pé de coelho, na benzedeira ou no feiticeiro, e assim por diante. Recordo uma frase que li certa vez que era atribuída a Henry Ford (se não me engano): “se você acredita que pode ou se acredita que não pode, de qualquer maneira você está certo”. Penso que esta frase define bem o intrincado mecanismo de crença que utiliza do raciocínio indutivo e dedutivo para construir uma representação. Este é o meu entendimento de crença que diferencio do conceito de , que ao meu ver, abarca uma reflexão mais aprofundada e faz uso predominantemente do raciocínio dedutivo.

Penso ainda que pode existir crença sem fé (mesmo que esses conceitos, para muitos, possam parecer indissolúveis), porém não pode existir fé sem crença. Ambos os conceitos são a tradução da compreensão que o indivíduo faz, porém com repercussão diferenciada sobre o mesmo. Tentarei explicar (acho que estou me enrolando... hic – foi o bombom de licor). Por exemplo, a crença sem fé pode compreender o apocalipse como um cataclisma incidental, enquanto no âmbito da fé essa compreensão abarca aspectos transcendentes de compreensão, como a ação de uma força superior intencional. Então a pergunta feita é: Fé no quê? Uma discussão que transcende a razão e os valores sócio/políticos/econômicos para uma dimensão inexata, porém irrefutável da natureza humana: a própria existência, o ato/força de existir. Penso que a complexidade e a grandeza desta questão circunscreve a tradução factual da perceptualidade e dos símbolos que represento ou que posso representar mentalmente – se é que não são determinados por uma força M A T R I Z (X) (fé ou crença?).

Neste sentido a fé, tanto quanto a crença, está alocada em diferentes áreas do saber e da ciência, quando por exemplo os médicos são capazes de descrever sistemas complexos que jamais viram ou virão. Como ainda, utilizando deste teclado para escrever-lhe e saber que daqui a instante esta mensagem alcançará sua caixa postal, sem poder eu pessoalmente fazer este percurso. Os engenheiros que desenvolveram este sistema tiveram muita fé nesta possibilidade, eu apenas acredito.

Como postulam alguns teóricos da física sobre a repercussão de uma ocorrência no centro da selva amazônica; uma árvore que cai não emite qualquer som sem que haja ouvidos que possam captá-los. Acredito no som que emite e que isso esteja ocorrendo neste exato momento (possibilidade), sem que efetivamente possa mensurar/quantificar tal fato. Entretanto tenho fé que a vida de animais indefesos possam ser salvaguardadas desta inexorável ocorrência.

Forte abraço,

Paulo

 
 
 
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