CAOS URBANO

por Fernandinho

 

Amarelo... vermelho! Ainda assim o carro precipitou-se ocupando parte da via, sem poder ir além, atrapalhando o já caótico trânsito matinal. Buzinas, impaciência. E lá estava o jovem “infrator”, motorista do automóvel branco, atravessado na pista.

 

Bati com as costas da mão no vidro fechado de meu carro e apontei o semáforo, ao mesmo tempo em que avancei com o meu automóvel ao ponto limite para uma colisão – sem levar a termo minha escusa intenção.

 

- Se bater eu te arrebento! – disse o intrépido motorista infrator.

 

Contei até 10! Contemporizei. Pensei em acelerar forte, desafiar, mas resolvi seguir o meu caminho. Ouvi ainda na saída, um sonoro “palhaço”.

 

Pus a observar-me. Percebi imediatamente os sinais de alteração emocional ao mesmo tempo em que pensei sobre o acontecido – ou o não -acontecido. Quanto de minha atitude é uma resposta instintiva e quanto é um sinal de inadaptação – me perguntei. Que parte minha, aparentemente inexistente, desejou a provocação, o enfrentamento? Como pode um estranho gerar tamanha descompensação?

 

Conduzo racionalmente e penso no jovem – motorista desafiador. De onde vinha e para onde ia? Estaria atrasado? É amado e/ou ama alguém? E quanto a mim, quais são os meus motivos – amor e ódio?

 

Então senti saudade do subúrbio da cidade de São Paulo, quase interiorano, onde me criei e adolesci. Senti saudade de mim, daquilo que não sou mais. Lembrei-me do trânsito que comportava pacificamente automóveis, carroças e bicicletas, e do tempo em que ser mais velho sinalizava relações de respeito e deferência. Os jovens respeitavam (ou temiam?) e não desafiavam. Os velhos também assim faziam. Poucos trânsito, maior humanidade.

 

Viajei em meus pensamentos e lembrei da intensidade da infância, cada gesto, cada encontro – grandes eventos. Hoje, impessoalidade, agressividade aflorada. Grito... Questiono... Concluo... Quem sou? Me quero de volta!

 
 
 
 

Fale Conosco