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CAIXOTES
por Donna
Crystal
Quando abro minha
porta, observo o espaço imediato e tudo me parece conhecido, tendo a achar
que posso conhecer tudo o que vejo todos os dias e que tudo possa ser
claramente identificado e sem surpresas.
No entanto, permanecendo no mesmo lugar e
apenas fechando os meus olhos, posso entender que nada vejo, nada conheço.
Estando ainda no mesmo lugar, posso abrir
os olhos e apagar as luzes e com certeza passarei a ver apenas difusamente
os móveis e objetos espalhados pela sala. Posso caminhar entre eles, pois
conheço as suas disposições, mas, basta que alguém durante o dia os tenha
mudado, e com certeza tropeçarei em alguns deles.Terei então, a certeza de
que espaço e objetos, mesmo que levemente modificados, não são mais meus
conhecidos.
Assim é a vida. Pensava que, para conhecer
alguma coisa dela bastava abrir a porta, acender as luzes, manter os olhos
bem abertos e não haveria surpresas
Leso engano. Esqueci que posso esquecer ou
perder as chaves, ocasionalmente as luzes se apagam e necessariamente
tenho que piscar. Encontro no lugar de móveis e objetos, pessoas tão vivas
quanto eu que, igualmente estão abrindo suas portas, acendendo suas luzes,
observando seus móveis/objetos e circulando por seus espaços.
Procuro entender estas pessoas e também me
entender com elas. Descubro que elas se deslocam o tempo todo e que eu me
desloco em relação a elas, dificultando o entendimento e ampliando o
conhecimento.
Relaciono pessoas com caixotes. Nascemos e
encontramos todos os nossos caixotes vazios, gradativamente vamos enchendo
um a um e, estando todos cheios, se faz necessário esvaziarmos para que
possamos novamente enchê-los.
A qualidade do encher/esvaziar/encher é que
faz a diferença. Porém, observo que passamos a vida nesta rotina. Até
entendo os caixotes cheios virados para cima, tampados ou abertos e mesmo
os vazios virados para os lados, mas devo admitir que não consigo entender
caixotes vazios virados para baixo.
Quero entender caixotes vazios virados para
baixo, do contrário terei a sensação de vida vazia sem sentimento ou
emoção.
Talvez seja pretensão querer entender os
caixotes, provavelmente para isto eu teria que entender a vida e a vida
não se entende, apenas se vive.
Gostaria de começar a encher os meus
caixotes com sorrisos, palavras positivas, amizades sinceras, amor
verdadeiro e momentos intensos.
Afinal, vivendo bem ou mal, a única certeza
que tenho é que obrigatoriamente o meu último caixote abrigará o corpo
que a terra alimentou.
Não me importo muito com o que vou devolver
para a terra, pois para ela devolverei apenas o que me deu. Mas gostaria
de devolver algo bem melhor para a energia cósmica universal e de não
precisar utilizar caixote algum para isso.
Estou tão cansada de coisas visíveis.
Coisas visíveis são perecíveis e como tais, são descartáveis. Preferia não
amar pessoas visíveis, desta forma não precisaria ver mais ninguém que eu
amo partindo.
Carência e solidão são as nossas mais fiéis
companhias?
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