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CAIXA PERDIDA NO TEMPO
por Donna Crystal
Solto o laço de fita de cetim que amarra a
tampa da caixa perdida no tempo e solto suas recordações
guardadas em forma de cartas, bilhetes, poemas, papéis que
outrora embrulharam presentes, fotos e flores mortas, amareladas
e secas, mas que ainda carregam a energia de um grande momento.
Como não sei em que fases das minhas vidas
passadas eu a amarrei e guardei preservando o seu conteúdo da
curiosidade de todos e do meu próprio temor, vou retirando cada
item cuidadosamente e procuro rememorar a importância de cada
um.
O efeito que provocam em mim é tão forte
que preciso me acalmar para continuar. Basta que eu os segure em
minhas mãos e feche os olhos para retornar a um passado tão
remoto que não sei identificar, mas que sei ter tudo a ver com
as minhas vidas.
Seguro um dos bilhetes e, mesmo antes de
lê-lo já sei que me fora entregue num momento de timidez misto
de ousadia e que me fez tão feliz.
Em seguida pego um botão de rosa
ressequido e automaticamente o trago ao peito, esta recordação é
ainda mais forte e me sensibiliza de tal forma que embarga a
minha garganta e as lágrimas me vêm aos olhos.
Novamente de olhos fechados eu tento
reviver aquele momento feliz quando este me fora entregue, mas a
emoção é tamanha que sou obrigada a esperar um pouco mais.
Então, passada a intensidade dos primeiros minutos eu repito o
gesto e aí sim, tudo fica claro na minha mente.
Agora, a emoção que sinto ultrapassa
qualquer limite e as lágrimas banham o meu rosto, revivo cada
momento como se estivesse acontecendo no presente e um misto de
felicidade, dor e saudade invade de tal forma o meu peito que
parece ter uma flecha cravada.
As fotos continuam embrulhadas em papel de
seda branco amarelado pelos incontáveis anos guardados, mas é
chegada a hora de começar a abrir as dezenas de cartas.
Paro e penso no quanto é interessante a
preservação das cartas escritas por nós e para nós no decorrer
de uma existência, coisa que hoje em dia pouco acontece. Elas
foram substituídas pelos e-mails que podem ser deletados a
qualquer momento, por qualquer razão e toda as lembranças
estarão perdidas para sempre.
Seguro o maço de cartas em minhas mãos e
tenho medo de abri-lo. Por mais que eu achasse estar pronta para
este momento, a realidade é que ainda tenho medo de encarar a
verdade guardada, escondida e calada.
Curiosidade e medo se misturam e dão um nó
na minha cabeça, as cartas continuam embrulhadas em minhas mãos,
mas a coragem parece não querer aparecer. Luto e reluto entre o
sim e o não, mas parece que não existe um vencedor.
Solto a minha imaginação e livre de tempo
e espaço sobrevôo lugares hoje esquecidos, mas que me acolheram
gentilmente no decorrer das minhas existências. Tudo faz sentido
e tem a sua importância. São relances de visão nos quais eu vejo
degraus de algumas escadas que sei me conduziam a partes
importantes da casa e, principalmente, da vida.
São jardins, pedras específicas, muros,
caminhos forrados de pedras, circundados por folhagens e flores
de raríssima beleza. Vejo ainda, alguns móveis esparramados por
salas diversas, camas em vários estilos, mesas postas para as
refeições, e os mais estranhos e diversos trajes de vestir.
Ouço vozes e risadas ecoando nos salões,
músicas e danças, olhares astutos e outros de pura simplicidade
e sinceridade. Vejo a harpa elegantemente alojada em seu suporte
num lugar de destaque na sala de música.
O piano silencioso aguardando que alguém o
procure e com os dedos seguros o façam explodir nos mais belos
sons copiados das partituras de um compositor-poeta que um dia
ousou declarar ao mundo os seus sentimentos.
Vejo a tempestade desabando, lavando tudo
o que encontra pela frente e em seguida o sol brilhando como se
nada tivesse acontecido. Vejo a noite estrelada e o poeta atento
a compor seus poemas.
Ouço o sino tocando anunciando a morte, a
vida, a festa e a união de dois amantes perdidos no delírio de
esperança por uma vida perfeita. Vejo a riqueza na pobreza e a
pobreza na riqueza indicando que todos somos iguais em
sentimentos. Vejo a crueldade e a bondade convivendo no mesmo
lar, crianças brincando, chorando, morrendo e nada posso mudar.
Olho novamente o maço de cartas que
continua em silêncio esperando a minha decisão. Outra vez eu
tento fugir e penetrar novos mundos na expectativa de
esquecê-lo, mas o peso ainda se faz sentir em minhas mãos e não
posso ignorá-lo.
Pego um envelope e observo a caligrafia
tão minha conhecida. Viro o envelope para confirmar o remetente?
Um olhar, uma pausa, um suspiro e alguns
mistérios começam a ser desvendados dando-me a certeza de que
não sou louca. Ou vivencio tudo isto porque sou louca?
Independente da resposta, uma fila de
rostos sem nomes começa a desfilar na minha lembrança e cada um
carrega consigo muita importância, pois por algum tempo fizeram
parte direta ou indireta das minhas existências.
As lembranças continuam como fleches em
minha mente é qualquer coisa parecida com uma torneira que
depois de aberta, por mais que tentamos, não conseguimos fechar
e a água continua a correr.
Procuro pegar os pedaços destas lembranças
e formar a sua história, mas embora façam parte da minha vida,
elas não pertencem a uma única existência, portanto não tenho
como completar e me sinto frustrada.
Agora seria o momento de abrir os pacotes
das fotos, mas a insegurança volta a me dominar e não posso me
furtar a uma série de indagações. Concluo que se fazem parte de
várias existências, talvez não identifique o rosto, mas ao mesmo
tempo eu me recordo que identifiquei a caligrafia. O que fazer?
Elas jazem ali a espera da minha definição
e mesmo caladas são muito mais fortes do que eu, pois são as
provas de uma realidade que por rebeldia, conveniência,
ignorância ou apenas medo eu reluto encarar.
Não leio o conteúdo da carta, pois de
alguma forma eu sinto que já sei o que está escrito. Pego
carinhosa e respeitosamente cada item e vou devolvendo à caixa,
tomando todo o cuidado para não força-los, pois podem ser
danificados com muita facilidade.
Por ultimo eu seguro os pacotes de fotos e
ainda tento encontrar coragem para olhá-las, mas felizmente ou
infelizmente ainda não posso. Guardo-as como relíquias que são e
fecho novamente a caixa, amarro-a com a fita de cetim e a
recoloco no fundo do armário do tempo.
23/04/06
21:43 hs
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