BARRO

por Donna Crystal 

Lavo o barro e o verniz que me reveste, deixo cair a lágrima que insistia em rolar e que eu não permitia nunca que ela caísse.

 

Abro a boca e deixo sair a voz sufocada e temida que ha muito estava calada em minha garganta. Liberto-a com a chave de um sorriso e ponho minha alma em cada palavra pronunciada.

 

Se a vida no geral não faz sentido, faço fazer sentido a vida. Eu existo e minha existência não pode ser negada, ignorada ou esquecida.

 

Até quando não tem a menor importância, viver agora é o que conta. Não esconder os meus sentimentos, mesmo que eles não possam ser compartilhados, afinal eles são meus e o que é meu tem valor real.

 

Não escondo mais as minhas alegrias elas são o meu refrigério. Também, não finjo que não estou triste, a tristeza faz parte da vida e só sabemos o que é alegria depois de conhecer a tristeza.

 

Busco encontrar o amor, por mais desencontrado que ele possa ser. Pra mim ele pode ser um sentimento que exige um eco, ou que dorme na mansidão dos meus pensamentos. Para outros um vulcão de emoções, um mar revolto ou veleja em águas tranqüilas.

 

O mais importante para mim é vivenciar intensamente cada segundo de interação, compreensão e calor que ele me proporciona. O meu “eu” conhece a sua presença e se enriquece com ela.

 

Amar me faz melhor, o amor acalma, rejuvenesce, equilibra, impulsiona, remove ferrugens e dá brilhos extras aos olhos que já brilham. Amar não faz bem só a quem eu amo, faz primeiramente em mim.

 

Tirar o véu da obscuridade e olhar pra luz observando seus tons, compreendendo seus efeitos me permite integrá-la à musica e fazer simultaneamente sinfonia e balé, com o efeito e a perfeição que busco incansavelmente.

 

Não me basta ouvir a música, ela precisa ser ouvida sim, mas vista também. Como é possível ouvir uma música sem “ver” o seu efeito? Não existe comunhão maior e melhor do que ver e ouvir uma música com os meus olhos fechados e os sentidos em alerta.

 

Desta forma, faço grandes viagens que vão muito além do aqui. Reviro mundos e conheço outras vidas, facilito os encontros e prevejo as partidas. Reviro e reinvento universos que só serão meus conhecidos.

 

O mundo que de fato existe é o que pertence a cada um de nós, como eu olho para o meu e como o sinto, ninguém jamais saberá. Da mesma forma eu jamais saberei como você olha para o teu, nem o que acha do meu.

 

Por isso, posso me revestir para quem eu quiser, apenas devo tomar cuidado para não fazê-lo pra mim mesma, pois se não tomar este cuidado, passarei por esta vida sem sequer saber o que vi, ouvi ou senti. E isto declararia a falência total da minha passagem.

 

Tudo é subjetivo e irreal, apenas as minhas sensações são verdadeiras, o mundo externo pode ruir ou desaparecer a qualquer momento, pois não depende apenas dos meus atos. Porém sentimentos, desejos e necessidades geram sensações que só sabendo conhece-las é que poderei curti-las ou transformá-las, elas me pertencem e não aceitam interferências.

 

Quando tudo parece ficar difícil de ser compreendido, ouço o som do vento na minha janela e ele traz consigo a música dos anjos, o grito do guerreiro, o sorriso da felicidade, o gemido de dor, a palavra do sábio, o choro da criança, o latido, o miado, o uivo, o berro, o barulho da chuva no telhado e o delicioso perfume da terra molhada.

 

Penso que tudo isto acontece ha bilhões de anos e que de tão comum não deveria chamar a minha atenção, mas revejo, ajusto meus sentidos e compreendo que agora é o meu momento, não importa pra quantos já tenha acontecido, o que conta é que agora, neste exato momento ele está se exibindo para mim.

 

Ele quer se fazer ouvir e sentir, então ele é meu pelo tempo que eu o desejar e veio carregado de tantas maravilhas de sons e cheiros pra mostrar que estou na mesma freqüência que ele, do contrário não o teria percebido.

 

Descubro então que faço parte de tudo isto e que nada está perdido ou incompreendido, porque eu nada tinha ou tenho agora, apenas perante a eternidade, integro por frações de segundos esta imensa corda viva.

 
 
 
 

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