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AMIGOS VERDADEIROS
por
Donna Crystal
Saio pela noite e enfrento as
trevas à espera da aurora. Relembro as luzes a brilhar num tempo
sem contagem e, ao meu ver, eternas.
Caminho com passos apressados
e um medo a acompanhar-me, causando calafrios em minhas costas.
É um medo estranho, como se alguém me acompanhasse com a
intenção de ferir-me, converso comigo mesma na tentativa de
acalmar os meus nervos, mas a sensação só aumenta.
Paro, em pânico, e procuro
algo sólido onde posso encostar as minhas costas e sentir-me
segura. Percebo, então, a insensatez do meu gesto e começo a
entender os emaranhados da minha mente.
O ambiente em nada se
modificou, eu em nada mudei, apenas me encostei ao tronco de uma
árvore e senti-me segura a ponto de conseguir raciocinar e rever
o meu momento de pânico. Por alguns momentos sinto-me ridícula,
mas ainda continuo encostada ao tronco da minha amiga árvore.
E se eu ousar sair agora, já
me sentiria fortalecida e conseguiria caminhar seguramente pelo
percurso traçado ou após alguns passos a sensação estranha
voltaria a dominar os meus sentidos?
Fico parada e procuro
encontrar a solução: ficar somente me faria criar raízes em um
lugar alheio a minha escolha e seguir poderá despertar em mim
maiores angústias. Lembro-me, então, que a cada pouco existem
outras árvores e se o medo me assolar poderei buscar-lhes a
proteção.
Sigo resoluta e caminho por
algum tempo cheia de confiança embasada pela presença dos meus
troncos amigos. Enfrento a hostilidade dos galhos ressequidos a
fustigar-me a pele, piso as pedras de todos os tamanhos,
escorrego, caio e me levanto. Encontro flores lindas e
perfumadas, uma relva macia e aconchegante onde posso descansar.
As frutas silvestres estão
como a se oferecer a mim e a água cascateia morro abaixo num
convite amistoso a saciar-me a sede e refrescar-me o corpo. A
abelha zunindo me mostra o caminho dos favos encharcados de mel
que, sôfrega, aprecio e me delicio.
Quando tudo parece perfeito e
estou me sentindo refeita, sigo resoluta pela minha estrada à
procura do sol, com seus brilhos fulgentes, eterno e quente.
Olho para o céu e vejo que as nuvens se formam e logo em seguida
o temporal desaba com tanto barulho que quase enlouqueço.
A chuva molha o meu corpo, os
galhos balançam com a fúria do vento e ferem a minha carne e a
noite parece não ter mais fim. Exausta adormeço e penso até que
consegui morrer, mas de repente o canto dos pássaros anuncia um
novo dia, a brisa suave secou-me as vestes e o sono
proporcionou-me o necessário descanso.
Levanto a cabeça, aspiro o ar
puro, me estico inteira colocando os meus nervos em ordem e sigo
com maior segurança.
Somos sozinhos? Sim, somos. A
nossa caminhada é só nossa, as buscas são nossas e os resultados
delas nos pertencem, mas para alcançar nossos objetivos temos
que transpor obstáculos que muitas vezes nos parecem
intransponíveis. Porém se paramos para analisar chegaremos
inevitavelmente à conclusão de que cada passo esteve cercado de
flores e perfumes exalados da presença amiga das pessoas
queridas.
Mas, principalmente,
descobriremos quantos troncos amigos encontramos de tempos em
tempos que acolheram as nossas costas e nos protegeram dos
nossos medos, proporcionando-nos preciosos momentos de reflexão
e dando-nos condições dignas de refazermos as nossas energias
para continuar a nossa caminhada.
Poucas vezes percebemos a
importância destes anjos voluntários que aparecem em nossas
vidas para nos dar forças e desaparecem para que possamos
continuar caminhando firmes sem nos tornarmos dependentes deles.
Para estas
pessoas que mesmo sem saberem vivem doando o bem precioso da
presença amiga, da palavra carinhosa, do abraço fraterno que
cura as doenças do corpo e da alma e do amor que a tudo ilumina,
eu ofereço o meu respeito, a minha gratidão e o meu coração. |