|
ALMAS PERDIDAS?
por
Cida Borges
Grilhões partidos, gritos
calados, almas afetadas pela frieza do desamor e a dificuldade
de aceitar a realidade tão dura.
Choros contidos pela
inutilidade das lágrimas ante um coração embrutecido,
desesperança vítima da indiferença e o desrespeito de nós
outros, assim é que nos apresentamos aos milhares, talvez
milhões.
Desconfiança do bem, com medo
que este vista a máscara do mal, pois o mal declarado já é nosso
conhecido, mas o bem é desconhecido e causa insegurança.
E a fábrica do “mau” continua
ativa, produzindo aos milhões; o valor invertido, que faz do
“mau” fortaleza e do bem a fraqueza, desvirtua os conceitos
prejudicando o conhecimento e adiando o crescimento.
Somos almas jogadas como
pedras à margem do rio, lutando contra a lama para garantir um
lugar com que nos sintamos seguros, mas a noite chega fria e
mostra a solidão das nossas vidas.
Aconchegamos-nos em nós
mesmos e aguardamos o triunfar de um novo dia para que o sol nos
aqueça e voltemos à luta de ontem sem jamais chegar a lugar
algum.
Desistimos, insistimos e nos
enganamos, voltamos a procurar por verdades e quando as
encontramos somos convidados a esquecê-las ou persuadidos a
transformá-las na inverdade coletiva.
A saudade que queima e
dilacera o peito aumenta de intensidade ante os rogos
deliberadamente ignorados pela força da indiferença.
Assim caminhamos todos,
produzindo doenças físicas, mentais e espirituais,
desequilibrando o conjunto e prejudicando a energia. O caminho
da morte se apresenta e apesar de todas as dificuldades da vida,
ainda somamos os arrependimentos disso ou daquilo.
Talvez estejamos tão
acostumados com a dor que achamos preciso sempre mais para
satisfazer uma vontade insaciável que nos consome internamente e
não nos dá trégua.
O que fazer nestas
circunstâncias? Devemos dar um basta às nossas próprias
cobranças ou exercitar o auto perdão? Lutar para continuar na
luta ou deixar que o corpo siga seu trajeto e se despeça da
vida?
Somos inocentes úteis no
sistema que nos governa ou pecadores orgulhosos que devem ser
eliminados do contexto para não prejudicar a “energia”?
Qual deve ser o nosso maior
medo: o da morte ou o da vida? Porque nos apegamos
dramaticamente à continuidade de um processo que é no mínimo
desgastante e obscuro?
O nosso medo da morte é por
ser ela uma ilustre desconhecida ou é o contrário: por ser já
nossa bastante conhecida?
Todas as vezes que me
coloquei diante de uma pessoa que caminhava a passos largos para
a morte, não sabia se devia dizer que deveria se apegar à vida
ou continuar rumo à morte. Sempre fiquei e ficarei na dúvida do
que pode ser melhor.
Quando chegar a minha vez,
como procederei? Não sei. Apenas posso garantir que hoje a morte
não me traz medo e, se o pior da vida é a morte, continuarei
seguindo em frente à espera do momento final, sabendo que nada
levarei nem deixarei, apenas e tão somente devolverei à terra
este corpo que hoje eu movimento.
O resto? É
uma grande interrogação, não é? |