|
A GUERRA
por Donna Crystal
Quando assistia aos filmes ou lia sobre a crueldade destrutiva
que uma guerra propicia aos cidadãos comuns, que são sempre os
mais afetados me perguntava como seria possível viver num país
assim.
Achava que nada faria sentido na vida das pessoas e que a espera
pela hora da morte súbita era a única expectativa das pessoas.
Sentia-me totalmente penalizada em relação às crianças e jovens
que ainda não tinham sequer começado a viver e que não teriam a
menor oportunidade de realizar os seus sonhos que nem tinham
acabado de nascer.
Imaginava os casais enamorados se separando com uma dor tão
aguda que seus corpos mal conseguiam suportar e tudo parecia de
um vazio insuportável.
Nunca entendia como as pessoas ainda continuavam indo aos seus
trabalhos e, principalmente, abominava as mulheres que
inconseqüentemente se permitiam engravidar em meio a tudo isto.
Eu as achava mais irresponsáveis e cruéis do que os responsáveis
pelas guerras. Quando todas as evidências mostravam a inevitável
guerra dos EUA contra o Iraque eu jantava em companhia de um
amigo e este com seus outros amigos e fiquei sabendo que uma das
esposas presentes estava grávida me deu uma revolta sem tamanho
imaginando como ela e o marido, pessoas pseudo esclarecidas
podiam colocar no mundo uma criança e se sentirem felizes.
À noite ao me deitar eu cruelmente pensei: Claro, é preciso
povoar o planeta para que se tenha mais criatura inocente para a
luta e, ainda, outras para assistirem a estes inocentes
lutadores e que todos juntos pudessem satisfazer a necessidade
sanguinária de poder de outros poucos.
Confessamente inconformada na semana seguinte eu comentei o fato
com o meu amigo e este me respondeu: Cida, apesar de você, o
mundo continua, o dono da padaria continuará a vender o pão, o
peixeiro; o peixe. O sol amanhecerá dando-nos um novo dia, mesmo
que tudo seja numa seqüência alheia a sua vontade.
Pensei: Claro, vamos continuar dando ao mundo os nossos entes
queridos lindos, educados e amados para alimentar a barbárie dos
ignorantes, arrogantes e ávidos do poder.
No decorrer dos dias eu revi este meu conceito e acabei por
entender que de fato a vida continua e que novas oportunidades
se apresentam para um crescimento inevitável. Porém, continuava
sem entender como as pessoas num país em guerra conseguiam
acordar e encontrar estímulo para continuarem vivendo.
Ontem me deparei com a dura revelação de que estou vivendo uma
grande guerra urbana e apesar disto eu continuo me levantando
todos os dias e dando continuidade à minha vida.
Assustou-me a constatação de que “lá fora” vidas estavam sendo
tiradas e que muitas crianças estão ficando sem os seus pais,
mulheres e homens sem os seus amores e ainda pior: mães e pais
sem os seus filhos e que eu estava ali confortavelmente sentada
ganhando o meu sustento, o da minha família e ainda continuando
com todos os meus projetos para o futuro.
A sensação que percorreu na minha mente e corpo foi algo
intraduzível em palavras, pois de um lado estava apenas o ser
humano no seu cotidiano e do outro a cobrança da minha
responsabilidade social.
Questionei-me longamente sobre todas as conseqüências e
possibilidades, para em seguida me sentir totalmente inútil ante
os fatos.
Lembrei-me de um texto que escrevi quando já se aproximava a tão
propagada guerra EUA/Iraque “MUNDO MODERNO” e concluí que em
nada eu havia me modificado, pois a minha voz continua calada.
Constatei, também, o quanto ainda sou pobre como criatura ou
criação Divina, pois me recolho confortavelmente no aconchego
dos meus espaços, fecho os ouvidos e permito que tudo continue
igual, contanto que o meu pequeno mundo não seja atingido.
Lembro-me, então, das crianças que adentram diariamente a loja
onde trabalho oferecendo guloseimas a quem na maioria das vezes
dizemos não e me pergunto: Se a minha filha que foi criada
recebendo amor, carinho, atenção, saúde e educação, tem hoje tão
poucas oportunidades neste mercado tão competitivo de trabalho,
o que eu posso querer esperar em atitudes altruístas destas
pequenas crianças exploradas pelos adultos e abandonadas em suas
próprias necessidades sem nenhuma expectativa de oportunidades
futuras a não ser, quase sempre, a escola do crime?
Sim, porquê um dia querendo ou não elas crescerão e qual a
bagagem que elas trarão para enfrentar tantas desigualdades?
Como reagiremos em relação a estas crianças, adolescentes e
adultos desprovidos de conhecimentos úteis, educação, saúde e
cujas necessidades físicas em nada difere das nossas?
Como se sentem todos ao assistirem no mundo da mídia todas as
facilidades, belezas e confortos disponíveis para uma pequena
minoria dizendo que só é quem tem?
Se as portas fechadas evidenciam as necessidades inerentes às
suas condições humanas, o que fazer para saciá-las? Parece-me
que a resposta menos aceitável, porém única disponível, seja o
“ARROMBAMENTO”.
E para isto não faltam os grandes mestres e podemos citar sem
nenhum medo de errar que infelizmente o nome conhecido não é
apenas MARCOLA, mas sim cada um de nós, a começar pelos
políticos que nos representam em todas as esferas, que oferece
ou recebe o primeiro suborno.
Assim, aqui estamos todos nós, vitimas inocentes, perseguidores
e algozes implacáveis convivendo lado a lado num ritmo
acelerado, procurando apenas por uma forma ou fórmula de
sobrevivência em meio a um mundo de silêncio que nos cerca.
Sim, é o silêncio de um povo calado que aceita tudo
passivamente, que não reivindica, não cobra, não reage e que
apenas se esconde atrás dos seus medos e das suas covardias
adquiridas no decorrer da vida, fruto da ignorância e da
preguiça conveniente a cada um.
Nestes momentos de reflexões eu me pergunto: Na minha arrogância
ao bater no peito e me classificar como um ser humano pensante e
consciente, no que estou me diferenciando de uma minhoca? |