Como anda a sua autoestima?

Por Paulo Madjarof Filho

Embora o termo autoestima faça referência à pessoa que valoriza a si mesma e expresse confiança no seu modo de ser, agir e pensar, só será validada no contexto das relações interpessoais, no campo em que se manifesta, na cultura em que a pessoa vive.

A autoestima é um reflexo do indivíduo no meio em que atua pela imediata repercussão do seu atuar. Imagine que se uma pessoa vivesse sozinha no mundo, pouca ou nenhuma diferença faria a sua aparência, o seu jeito, o seu atuar. Não haveria reflexo, não haveria repercussão.

Entretanto, o homem é um ser gregário, dependente desde o nascimento, incapaz de sobreviver sem cuidados, e vê-lo sozinho no mundo só se realiza mesmo no campo da imaginação. Vive em grupos culturais regido por regras determinantes dos comportamentos aceitos e esperados, regras essas convencionadas fundamentalmente pela necessidade de sobrevivência e perpetuação da espécie.

Na cultura ocidental, fortemente impregnada pelas referências sócio-capitalistas e por políticas de consumo e poder, a autoestima pode ser compreendida pela bandeira do “Ser pelo Ter”, ou seja, se “É” quando se “Têm”! Essas regras não estão propriamente escritas num manual geral da autoestima, mas estão convencionadas pelo que pode ser acolhido pelo grupo numa espécie de Green Card de tolerância mútua e aceitação.

O reflexo da autoimagem presume a coerência com o grupo cultural do qual o homem participa, o grupo de identificação. Quanto mais esse homem se parece com esse grupo, menor a dissonância entre os elementos que o compõe.

Os problemas relacionados à autoestima estão justamente nas diferenças evidenciadas nas comparações dentro do próprio grupo de convivência. Competências e habilidades, conquistas e feitos, valores e posses, legado e referências herdadas, destemor e coragem, identificação e popularidade, enfim, tudo que marcar em evidência com consequente reflexo para a aceitação e reconhecimento. Mais importante do que se destacar no grupo é não destoar-se dele.

Não pense que a simples afirmação de “gosto de mim como sou” é suficiente para a construção de uma boa autoestima. Sem dúvidas, devemos nos reconhecer e nos valorizar para um reflexo melhor de nossa atuação no palco da vida, e ainda assim, alentaremos expectativas de aplausos e pedidos de bis de uma plateia real ou imaginária.

Essa correspondência imediata de nosso atuar é identificada desde as primeiras peripécias de um bebê, que tende a repetir o comportamento cujo reflexo corresponde à aceitação e carinho. De fato esse padrão tende a se repetir e estará presente por toda a nossa vida. Portanto, a aceitação é o baldrame do edifício chamado “minha autoestima”.

Ser aceito não necessariamente significa ser bom. Imagine que num sistema penitenciário a autoestima, o reconhecimento e a aceitação está pela cadeia de valores que rege esse sistema. Talvez, sob certo aspecto, o valor da autoestima esteja diretamente relacionado ao caráter de perversidade valorizado e reconhecido dentro desse grupo. Afirmar por exemplo, que se é amigo do Fernandinho Beiralago, confere ao individuo certo status, certo valor. Quanto mais me pareço com o Fernandinho Beiralago, mais sou reconhecido, mais me destaco dentro desse grupo especifico.

Por essa perspectiva podemos analisar também o culto à beleza estereotipada e determinada pela propaganda exibicionista de valorização do “Ter”. Assim, em nome dessa beleza (aqui, também, sinônimo de aceitação), um individuo pode adotar comportamentos que sob a ótica de um extraterrestre certamente seriam incompreensíveis. Tente ver com distanciamento, por exemplo, a experiência a qual uma pessoa se dispõe a um procedimento cirúrgico altamente invasivo e que coloca em risco a sua própria vida para evidenciar uma parte de seu corpo ou extirpa-la, para um novo reflexo em seu mundo de convivência e acolhimento.

A louca obsessão pelo corpo perfeito é apontada pelo ranking das cirurgias estéticas feitas por todo o mundo divulgado pelo ISAPS, que corresponde a mais de 23 milhões de cirurgias realizadas em 2013. O Brasil, pasmem, ocupa a segunda posição dos países que mais realizam esses procedimentos. Não há garantia alguma que ações desse tipo se traduzam numa autoestima elevada, em especial quando o individuo busca um reflexo que acalenta um Ser que ele não é – e jamais será! Essa reforma (ou cirurgia (!)) certamente é de outra ordem.

Pensemos então a construção de uma autoestima mais elevada pelos critérios de exclusão, pelo que não é desejável, pelo que não agrega, não valoriza. A imitação observada no comportamento de um bebê para se parecer com os seus cuidadores é amplamente apreciada e reflete imediata aceitação. Logo, sabemos que quanto mais nos parecemos, quanto mais somos iguais aos que nos cercam, mais aceitos seremos, melhor será o nosso reflexo no grupo.

Parecer-se não quer dizer despersonificar-se, deixar de ser quem se é. Também não quer dizer destacar-se, ser mais do que alguém dentro do grupo de relacionamento. Quer dizer, em primeira instância, não destoar deste grupo, desta cultura, dos costumes e valores. Ainda que essa não seja uma receita, até porque essa receita não existe, contribui para a adaptação e ajustamento, com desdobramento na autoestima de uma pessoa.

E você, como anda a sua autoestima? O que você faz para ser aceito? Quanto se sente valorizado nas diferentes áreas de sua vida? Quanto se sente verdadeiramente competente? Quanto se sente inferior aos que te cercam? Quanto gosta de seu próprio reflexo? Quanto acredita em si mesmo? Pense nisso, mas pense agora...