É possível desapaixonar-se?

Por Paulo Madjarof Filho

Frequentemente sou indagado, em especial por pessoas que se encontram na penúria pelo amor perdido ou não realizado, sobre a possibilidade de desapaixonar-se, deixar de gostar de uma pessoa especifica, romper o ciclo de sofrimento em que se encontram. E a resposta a essa pergunta é sim. Isso é possível. Ressalvo sempre que ela pode não gostar muito da repercussão dessa ação!

Consideremos a paixão mutua entre duas pessoas como um encantamento, uma magia. Quando estamos apaixonados supervalorizamos as experiências vividas, nos tornamos sensíveis e perceptivos, ampliamos as sensações e nos investimos de certo poder, de uma força e uma vontade transbordante. Nos sentimos o encaixe perfeito, o plugue certo para a tomada certa, e vice versa. Não é difícil identificar essas características na observação de alguém que está sob a influência da paixão. Ela têm luz. Observe.

Pessoas mutuamente apaixonadas pensam juntas, sentem juntas, são leves, agem simultaneamente na mesma direção, tal qual bailarinos em passos de dança sincronizados. Reverberam o encanto, tornam-se bobas, riem sem motivos. O relógio das pessoas apaixonadas sinaliza o tempo de um modo diferente, seja porque o tempo parece passar mais depressa, seja porque um único minuto pode parecer uma eternidade. Pessoas apaixonadas tornam-se belas e mais atraentes. Exalam um cheiro diferente, um hálito diferente, transpiram fertilidade.

A magia da paixão arranca suspiros e aplausos, mesmo quando o número de mágica é repetido. “O coelho retirado da cartola”, “o segredo da carta de baralho revelado”, “o aparecimento de pássaros por baixo da seda colorida”, enfim, tudo é motivo de surpresa e encantamento. O grande problema é justamente quando a magia vira truque – e um truque revelado. Não há coelho, nem segredo, nem tampouco pássaro. Desencanto, decepção, desilusão, frustração, despaixão.

É importante ressaltar que não nos apaixonamos pelo outro, mas sim pela imagem ressonante do outro criada em nossa mente. Ressalto ainda, que a paixão não se localiza fora do individuo apaixonado, não está na outra pessoa, objeto de sua paixão, senão na representação interna que ele faz da outra pessoa, a imagem ideal. Isso posto, sob uma perspectiva materialista, consideremos que se um individuo morre, morre com ele os seus sentimentos, a raiva que sente, o amor que sente, suas angústias e sofrimento, morre a paixão. E se isso pode morrer com ele, só pode se resolver nele!

A mente de uma pessoa que viveu um rompimento que não foi aceito por ela entra então em looping. Ela se repete em justificativas nunca suficientes e pela busca de um entendimento que nunca terá. Mal sabe, sob essa influência, que não será capaz de equacionar pela razão o que apenas a emoção pode traduzir. E então costuma em repetição dizer frases do tipo “eu só queria entender”.

Desapaixonar-se é um trabalho que a pessoa faz consigo mesma pela desconstrução da imagem ressonante da outra pessoa que tem representada dentro em si. Quando a ênfase do foco está no “truque revelado”, o desencanto é certo. A valorização dos aspectos negativos em detrimento dos resquícios persistentes do encanto vivido tende a enfraquecê-los e desvalorizá-los, do mesmo modo, que a valorização da magia evidencia a dor e o sofrimento, em especial, quando não se pode mais reeditar a experiência.

Mas isso pode ter um custo e você precisa saber se está disposto a pagá-lo. O problema em desapaixonar-se está no perigo em desenvolver um sistema bruto e rígido das emoções, uma espécie de autismo intencional, um tipo de massa epoxy de impermeabilização dos sentimentos. Pode se criar um mecanismo de excessiva racionalização que tornará, por generalização, outras experiências da vida pouco importantes e até banais. Essas são as possíveis consequências da decisão de desapaixonar-se. Tornar-se emocionalmente refratário. É isso que você quer?

Escolher entre tipos de sofrimento não é uma tarefa das mais desejadas e nem das mais fáceis. Refiro ao sofrimento de viver uma relação cuja mágica virou “truque revelado” e ficar na expectativa que outras magias possam surgir nessa relação e encantar novamente. Ou, assumir que “truques revelados” são desprovidos de encanto e estão longe dessa possibilidade, e viver o sofrimento por esse reconhecimento e o consequente afastamento do mágico ou da magista. Ainda que haja a condição de escolha, a desconstrução da paixão é um processo que faz parte dessa escolha.

Não se pode afirmar sobre o tempo necessário para a efetivação do processo de despaixão e o absoluto desligamento do feiticeiro(a)-encantador(a), mas certamente, considerando o sofrimento comum resultante dos rompimentos afetivos, esse tempo seguramente será inferior ao que a própria ação do tempo é capaz de realizar, onde comumente o culto ao que não se têm mais reverbera por um longo tempo, às vezes por anos.

Então caro leitor, pense bem ao tomar a decisão de desapaixonar-se. A ausência total de paixão pode ser sinonimizada com a falta de ambição pessoal, a falta de sonhos, de perspectivas de vida, com a perda do elã vital, em suma, com a própria depressão.