As faces da sugestão

Por Paulo Madjarof Filho

A observação da sugestão indireta como fator de ressonância social se faz especialmente pela repercussão dos produtos subliminarmente apresentados na mídia (TV, rádios, jornais, Internet, etc.). Refiro-me à apresentação subliminar justamente por tratar-se do aspecto sugestivo indireto, o que não significa que a sugestão não esteja presente também numa forma direta de exposição – e como está!

No momento da decisão sobre este ou aquele produto, ainda que acredite que a decisão seja exclusivamente sua, o individuo está sob a força de sugestões que sequer se dá conta. Crenças formadas pela influência indireta contaminam-lhe o espírito e o poder de decisão.

A doutrinação publicitária por meio de comunicação de massa pode, e por vezes é, ser utilizada como um meio multiplicador de cultura e conhecimento, entretanto, repercute muito mais no campo do controle intencional sobre os grupos, como sementes lançadas ao sabor do vento que encontram o solo fértil, para germinar e frutificar. Assim, atinge cada um, isoladamente, em sua solidão. Promove o isolamento. Multidão de pessoas solitárias oferecidas ao nivelamento pelos meios de comunicação.

Quando a sugestão incide sobre multidões, palavras de ordem repetidas obsessivamente são instrumentos perfeitos para arrebanhar as pessoas para causas diversas, desde torcidas de um time ou modalidade esportiva até mártires religiosos ou políticos. O homem no meio da multidão assimila seu comportamento ao dos outros, e muitas vezes, abandona todo pensamento e todo querer pessoal, o espírito critico e o sentimento de responsabilidade, reduz a racionalidade e eleva o emocional. Mata e morre!

Um exemplo mundial deste efeito foi a influência da propaganda hitlerista que arrebanhou cidadãos do bem que se tornaram violentos, assassinos, estupradores e saqueadores, em nome de uma causa justa (?). Sabemos dos recursos de encenação visual, sonora e emotiva presente nos congressos de Nuremberg. Símbolos, discursos, saudações, cores e bandeiras e... furor emocional... maior a irracionalidade.

A sugestão sob o ponto de vista da psicologia e da medicina, tornou-se objeto necessário de estudo. O chamado efeito placebo[1] nas investigações de novas químicas exigiu a instituição do duplo cego[2] nas pesquisas cientificas pelos vieses nos resultados. Na medicina, o ritual de prescrição e a magia que impregna o ato médico – que sugere em si a resposta ansiada pelo paciente – favorece o resultado antes mesmo da prescrição. Esta seja talvez a atribuição mais positiva de aplicação deliberada da sugestão, ou seja, os rituais de cura.

O tema sugestão é tão amplo e fascinante que seu estudo exige dedicação exclusiva de uma vida. A sugestão está e sempre esteve presente em nossas vidas determinando valores e crenças. É etérea, está no ar e sequer pode ser detectada. É uma realidade psicológica implícita no simples ato de existir, na mínima comunicação. Instrumento perigoso se ardilosamente utilizado.


[1] Efeito observado por força da sugestão que acompanha uma orientação médica, por exemplo, a administração de uma substância inócua (pílula de açúcar).

[2] Gerenciamento de pesquisa em que o gerente, o pesquisador e o sujeito da pesquisa não tem conhecimento um do outro, sem saber diferenciar o placebo da droga.