Hipnose, ciência e exceção

por Paulo Madjarof Filho

Venho me dedicando ao estudo da hipnose há pelo menos 25 anos e confesso que, o que me fascina neste estudo, é lidar com o imponderável, com a exceção. Quero dizer que a possibilidade de verificar experimentalmente o enorme repertório humano através da hipnose e os seus efeitos de modo geral sobre o organismo e a vida do indivíduo, se configura para mim, como a razão fundamental dessa dedicação. A certeza se torna talvez quando transcende o limite do explicável, como a doença que cura, o vício que se extingue, a ansiedade que se transforma em desafio, a covardia que se converte em coragem, em suma, o absoluto que se torna relativo.

Quero deixar claro que não tenho a intenção de contrapor a ciência acadêmica – da qual me valho e me guio, nem fazer apologia à mística como alternativa explicativa ao que ainda não se sabe (ou o que se busca). Pretendo justamente colocar em discussão a ciência, seus métodos e pressupostos, em especial, em relação ao estudo de aspectos de difícil quantificação, qualificação e mensuração – ao que chamo de critério de exceção. Refiro-me menos ao fogo que queima – objeto preferencial do estudo cientifico – e muito mais a queimadura sem o fogo. Ao sintomas sem causa ou a causa sem sintomas.

 Foi filósofo Karl Popper no inicio do século XX, que propôs uma discussão sobre a falseabilidade (refutabilidade) baseado em dois pressupostos norteadores do “fazer cientifico”; a particularidade singular e os enunciados universais. Em resumo, no exemplo dado pelo próprio Popper, a afirmação de que “todos os cisnes são brancos” pode ser refutada pela observação de um “cisne negro”, tornando falsa a primeira afirmação. A ênfase de Popper no critério de eliminação contrapõe o método verificacionista, sem deixar entretanto de basear-se na lógica e na confrontação e sua consistência e conformidade com os fatos.

 Ainda que a contribuição de Popper tenha sido fundamental para o pensar cientifico no último século, insisto na discussão do critério de exceção: “o câncer em um estágio especifico de sua evolução irremediavelmente faz sucumbir”; até que essa assertiva possa ser refutada, seja pela mudança de um padrão de crença pessoal ou mesmo em nome de um “santo milagre”. Independente da lógica – mesmo que possa ser confrontada com fatos observáveis, trata-se de uma exceção – da não-regra.

 Recordo um amigo carioca, com formação e atuação na área de economia, que após vivenciar a experiência do transe hipnótico, ponderou: “tomei contato material com meu inconsciente” – vale lembrar que se trata de um economista, e “material”, é a relação que ele conhece e estabelece com o mundo. Para ele, acessar uma instância do psiquismo que embora não possa ser engarrafada, encaixotada, congelada ou equacionada numa calculadora HP, tornou-se algo “sólido”. Aponto sempre esta história quando desejo fazer uma descrição concreta da hipnose – se é que isso é possível!

Compreender a fenomenologia dos processos envolvidos na hipnose implica numa abordagem maior do que os conceitos que a definem; refere a aspectos filosóficos, a um estilo, um modo de viver. Implica fundamentalmente na crença de que os limites, a impossibilidade, o freio, o impedimento, são invariavelmente determinados pelo próprio indivíduo, pelas restrições que este se impõe ou acredita possuir – mesmo que não possa ser verificado ou refutado.